Regina Célia é escritora, formada em Letras, membro da AMULMIG _ Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, autora dos Livros Gangorra e Ad versos, alem de crônicas publicadas em jornais e em posts.

domingo, 18 de março de 2012

Maledicências


Eu não assisti ao Fantástico domingo. Aliás, há anos não o faço... A vinheta do “show da vida” me angustia e as pautas do programa sempre deixam a desejar. Assim, recuso-me a ficar ligada na telinha.

No entanto, minutos após o encerramento do programa, as redes sociais comunicavam o desfecho vergonhoso do programa, com a poderosa emissora ficando fora do ar por alguns segundos e o apresentador completamente perdido sem saber explicar o ocorrido.

Quando lhe sopraram que o programa deveria ser encerrado, o sujeito estava ao vivo, engasgado, mas desejou um “boa noite” meio medíocre e teve se microfone cortado.

No entanto, continuou a falar e todo mundo quer saber o que ele dizia... Até eu que não curto a programação estou curiosa.

Os comentários dizem que ele ficou com cara de paisagem, mas confesso que já vi paisagens muito mais interessantes!

Outros dizem que ele falava mal da Presidenta, por isso teve o áudio interrompido...

Falaram também que ele se desculpava pelo vexame ao qual se submetera em uma palestra realizada em São Paulo, quando uma daquelas calças ridículas que ele usa se rasgou...

Quanta maledicência...

Conta Zeca, sobre o que realmente você estava falando? ♪♫ Como vai você? Eu preciso saber da sua vida...♪♫

quarta-feira, 14 de março de 2012

Dias Cheios de Poesia


Eu desejo a você dias cheios de poesia! Dias em que o sol brilhe na medida certa e o vento assopre com hálito mentolado o seu rosto. Magia.

Eu desejo a você dias cheios de poesia! Dias em que o voejar das borboletas espalhe alegria pelo ar e o seu sorriso seja sereno... Encantamento.

Eu desejo a você a suavidade das rimas raras, o choque das antíteses e a métrica esquecida pelos modernistas... Poesia.

Ah eu desejo que você dedique uns instantes a absorver a poesia que brotas das ruas, que nasce nas praças, que invade os comércios, os órgãos públicos e os bancos, que louva aos deuses e seduz almas corações em Barão de Cocais. Oportunidade.

Eu desejo que você tenha dias cheios de poesia, da poesia sagrada, da poesia pagã e da poesia in natura que encanta nossa paisagem. Fé.

Os pássaros, as flores e toda a natureza prometem uma semana de agradáveis sensações a quem vai, a quem fica, a quem nem pretende sair do lugar... Nas ondas do rádio, nos cantos dos pássaros, no perfume das flores, no olhar do apaixonado... Eu desejo que você tenha essa chance de ser contaminado por esses dias cheios de poesia. Alegria.

A cidade- poesia se oferece ao deleite de dias cheios de poesia durante a semana de 14 a 21 de março. Poetas de todo universo aguardam a oportunidade de suavizar a correria do seu dia a dia e espalham versos por todos os lados na cidade – poesia! Convite.

sábado, 3 de março de 2012

O sabor do Jambo


Quando criança, meu avô materno cultivava hortaliças, milho e feijão miúdo em um terreno de sua propriedade, próximo a nossa casa. Adorávamos quando ele voltava com uma sacolinha de jambos e nos entregava no portão. O jambo é uma fruta diferente... tem um gosto diferente, uma textura diferente, mas a sua aparência se mistura com o figo e com a goiaba. O gosto não!

O jambo é uma boa fonte de ferro, proteínas e outros minerais. Os frutos apresentam 28,2% de umidade, 0,7% de proteína, 19,7% de carboidratos, contendo entre eles vitaminas como A (beta caroteno), B1 (tiamina), B2 (riboflavina), minerais como, ferro e fósforo. Em 100g de polpa, tem 50 calorias.

Certa vez Vô Geraldo disse que as corujas haviam colhido todos os jambos naquela noite. Garrei um ódio delas... Mas acho que não era verdade! O vô Geraldo tinha muitos netos e era justo que a cada dia ele presenteasse netos diferentes com aquelas frutinhas...

Por muito tempo vi as corujas como rivais na degustação de jambos, mas depois isso passou. Descobri que apenas as corujinhas buraqueiras se alimentam de frutos e sementes... Eu as xingava, mas elas nada faziam a não ser observar. Eita bichinho que presta atenção a tudo!Amo as corujas.

Muitos anos e muitas frutas depois, adquirimos uma pequena propriedade, dedicada a São Jorge, no distrito de Cocais. La existe um enorme jambeiro, mas não é que as corujas disputam mesmo os frutos conosco?

Descobrimos que o jambo tem um sabor acentuado de pétalas de rosas... Nunca comeu rosas? Esta perdendo uma grande oportunidade de conhecer um sabor diferente, perfumado e adocicado... Mas tem que ser rosa caseira, cultivada pela mãe, pela tia ou pela avó.... Nada de rosas de floriculturas...

Pois bem, o jambo que as corujas não levam eu como! E hoje me bateu uma vontade danada de comer jambos!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Rompendo Barreiras


O destino do ser humano é esse: romper barreiras... Romper barreiras desde que se nasce... Sempre alguém fica para trás... Sempre alguém desiste... Alguém sempre é reprovado, alguém sempre é derrotado!
Mas que sociedade é essa de notórios conhecimentos capaz de derrotar, excluir, reprovar ...? Em que local está a perfeição e quem assim a denominou?
Se a religião, a cor da pele, a opção sexual, a idade, o peso ou a altura são fatores que promovem a exclusão, a marginalização e ergue barreiras sociais alguém poderia dizer qual a religião certa, a cor da pele certa, a opção sexual certa, o peso e a altura corretos? Como explicar o fenômeno do rompimento de barreiras tidas por indestrutíveis aos olhos medíocres da sociedade?
Acordar a cada manhã para viver um novo dia é se preparar para romper barreiras. No meu caso é! A minha casa é adaptada para as dificuldades de locomoção da minha mãe, mas eu também pego carona nessas adaptações. Para lavar os pés, preciso da barra de apoio que foram colocadas para ela, senão não consigo. Escada tem que ter corrimão! Não posso pegar a lotação porque os ônibus sempre param bem afastados dos passeios e a altura do degrau do ônibus não permite que eu me apóie em uma perna com todo meu peso para entrar... Sair a pé é bem mais cansativo e demorado, mas menos constrangedor.
Comprar roupas era vergonhoso, incômodo e revoltante. As lojas não vendiam nada que tivesse uma numeração superior a 48 e essa numeração não me vestia e nem veste! Eu era obrigada a usar umas roupas que pareciam um pacote enorme, aberto embaixo e com 3 buracos simétricos na parte superior. Chamavam a isso de roupa de gorda!
Poxa, não trabalhar a sensualidade, o decote, a transparência, os detalhes numa peça de vestuário apenas porque ela gasta mais tecido é, no mínimo, desrespeitoso!
Hoje é menos penoso, algumas lojas se dedicam a atender ao enorme público dos gordos e trabalham numerações que chegam até o 80! Roupas joviais, leves, sensuais, elegantes e que vestem as gordinhas, as gordas e as gordonas sem o menor problema! O público plus size agradece a sensatez...
É preciso romper barreiras e chegar lá. Todos os dias! Ytisteza? Pra que? A alegria deve se fundar em cada um... O sorriso destrói barreiras.é preciso curvar, é preciso saber-se cumpridor da própria missão de ser feliz...
Adélia Prado, em sua “ Com licença Poética”, exalta a missão da mulher: “Quando nasci um anjo esbelto,desses que tocam trombeta, anunciou:vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher,esta espécie ainda envergonhada.//Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor.// Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos-- dor não é amargura.//Minha tristeza não tem pedigree,já a minha vontade de alegria,sua raiz vai ao meu mil avô.Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.Mulher é desdobrável. Eu sou.”
Adooooroooooooo !

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Pra Quando o Carnaval Chegar


A banalização da alegria, a banalização da música, a banalização do corpo, da roupa, da saúde... Tudo é normal, tudo é permitido... Desde que se use a camisinha! Não saia sem ela. Afirmam os discursos permissivos do governo. Sem ela não dá! Apregoam as ONGs, Camisinha na folia é nota dez em harmonia... Aff!!!

Sem noção! Cismam em proclamar que se você curte a folia, vai transar... E eu em casa, ouvindo o Chico cantando Quando o carnaval chegar.

A festa começa na sexta e vai até a madrugada de quarta-feira, quando os foliões deixam as ruas e vão se encontrando com as beatas que se dirigem para o recebimento de cinzas na igreja.

Paaaaara tuuuuuudddddooo!!!


O beijo roubado não é mais permitido. É caso até de policia! “Há quanto tempo desejo seu beijo molhado de maracujá...”Até eu que não curto a folia, não apóio a banalização do sexo, da música, do corpo, das roupas, da saúde e não sou contra o beijo roubado lamento o fim da festa momesca.

É uma pena, mas acabou. “ Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar...”

Pulei todos os dias na minha cama fofa e aconchegante. “Quem me vê sempre parado,distante garante que eu não sei sambar...” Não tenho paciência pra televisão e nem aos desfiles do Rio ou de São Paulo eu assisti. Tomei conhecimento da baderna da apuração em São Paulo pelo face book... Essas redes não perdem nada!

To me guardando pra quando o carnaval chegar!”

Aqui virou moda dizer “é meu jeito moleque de ser”... Tudo isso em referencia à banda que abriu nosso carnaval e que , pelo visto, o povo curtiu à beça!

“E quem me vê apanhando da vida, duvida que eu vá revidar...Tô me guardando pra quando o carnaval chegar!”

Agora a vida volta ao normal. Ou, em muitos casos, começa o ano... No Brasil o ano novo, em geral, começa após o carnaval. É A banalização do tempo. Yes, nós temos bananas!

As marchinhas da Praça Nossa Senhora Aparecida ainda vão ecoar por toda quaresma na cabeça dos foliões... Banana menina, tem vitamina... Banana engorda e faz crescer!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Crisálida


A vida é feita de ciclos. Isso todos sabem. O que poucos sabem é reconhecer esses ciclos na prática, é reconhecer-se na metamorfose própria de cada ciclo.

Metaforicamente, borboleteamos durante toda a vida! Passamos por cada etapa de nossas vidas seguindo os mesmos ciclos de vida da borboleta: 1) ovo / fase pré-larval 2) lagarta;3) pupa / que se desenvolve dentro da crisálida;4) imago / fase adulta

A Borboleta passa a maior parte da vida em estado de larva (lagarta), alimentando-se de folhas. Enquanto crescem e se desenvolvem, as lagartas trocam várias vezes de pele até se transformarem em pupa, ou seja, quando sua pele endurece e forma um casulo.

No interior do casulo (crisálida), a pupa não se alimenta, move-se raramente e transforma-se em Borboleta adulta.

Após um período que pode variar de duas semanas até vários meses, segundo a espécie, a Borboleta rompe o casulo.

Geralmente, quando surge uma nova situação, podemos considerar que estamos na fase 1 da metamorfose. Enquanto digerimos a nova situação e tentamos – em vão- obter respostas vivemos a fase 2. Aí percebemos que é preciso dar tempo ao tempo e nos recolhemos para não tomar atitudes precipitadas (fase 3). Após um relativo período em que a poeira se assenta e conseguimos amadurecer com a nova situação, saímos prontos para viver de uma nova maneira, melhor e mais bonitos! (fase 4)

A cada novo ciclo adquirimos mais resistência e novas roupagens. Somos diretamente afetados pelas mudanças e somos renovados por cada uma delas.
As borboletas são símbolos de liberdade, alegria, leveza, ligeireza, riqueza... No Brasil, sonhar com borboletas é bom presságio(no jogo do bicho corresponde ao número 4), Nos EUA, soltar borboletas num casamento ou divórcio significa disponibilidade para uma nova vida; Na china, a mulher é simbolizada pela borboleta, por sua especial ligeireza e delicadeza;Na França, uma borboleta é anúncio de boas novas; Na Grécia as borboletas são diretamente ligadas à evolução espiritual.

Entendo que, por seu simbolismo e beleza, minha irmã Luciana as ame tanto! Seu quarto é quase um borboletário artificial; Sua pele as tem marcadas para todo o sempre... Ela própria uma metamorfose em evolução... Hoje muito mais bonita que quando ovo ou larva. Hoje adulta, livre, madura, soberana e voejante.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Super Proteção


Na minha vida não me inspirei em super heróis. Nem quando era criança. Achava aquelas roupinhas dos ditos heróis sempre muito ridículas! O super homem usa cueca em cima da calça, a mulher maravilha usa cinto largo com short e um diadema na cabeça... Brega demais! Tarzan, Flash Gordon, Batman, Capitão América, Homem de Ferro, O Coisa (e que coisa, viu!)... Todos na defesa do bem, da paz, no combate ao crime, tomando para si a responsabilidade de ser protagonista na luta do bem contra o mal. Fardo muito pesado para um ser humano. A mulher invisível era tudo o que eu não queria ser. O Zorro dispensaria qualquer comentário se não tivesse sido copiado pela Tiazinha... rs rs, Chapolin Colorado é bizarro, mas amava o Lion dos Thundercats... Esse sim, um gato!

Agora, depois de crescida, sei que tinha razão. Heroísmo é coisa de bombeiro... Mas alguns pequenos poderes é-nos concedido sim e vivemos a tentar colocá-los em prática!

Tentar voltar o tempo não nos é possível. O que passou, passou (e tudo passa!).

Queria, porém, aprisionar algumas coisas que me fazem bem, que me dão quentura n’alma. Pus-me então a construir um espaço de proteção para algumas coisas – poucas- que não desejo perder. Criei uma redoma para guardar aquele sorriso de Clara, a rosa estronda mundo do jardim de mamãe, a doce voz de Melissa, o cheiro do doce de cidra, a minha primeira visão do mar, o beijo na mão... Lembranças que afagam meu coração por dentro e de que eu cuidarei por toda vida, a fim de que nenhum mal lhes suceda.

Diz a musiquinha da Banda Mais bonita da Cidade que “coração não é tão simples quanto pensa, nele cabe o que não cabe na despensa, cabe o meu amor”. Assim, heroicamente criei uma redoma de pura energia pela qual nada pode passar além da ternura de quem vê. Uma redoma que guardo no mais aconchegante cantinho do meu coração, aonde só pode chegar quem tem a chave.

Trouxeste a tua?

Expiação


O céu de estrelas cintilantes pode nos levar a sonhos, pode nos levar ao encantamento e pode nos levar ao completo êxtase contemplativo. Esse é o céu de pós chuva numa noite de verão de Barão de Cocais. A lua não apareceu... É muito nova pra sair a essa hora de quase completa solidão, alguns boêmios que não se percebem sós, pois conversam com alguém que não vemos, passam inertes àquela pequena luminosidade piscante nas alturas. O cigarro é um companheiro e tanto nessas horas em que assistimos ao nada na mais profunda exaustão do tédio.

Só assim mesmo para terminar o dia depois de driblar contra o vento sul desde a manhã. Tenho um amigo que se refere a esse tipo de dia dizendo que levantou com o pé esquerdo. Mas, graças a Deus! Penso nessas horas. Levantar sem ele seria pior! Hoje, no entanto levantei com os dois pés virados para trás. Era a própria versão feminina do Curupira! Meus cabelos acordaram muito antes de mim e estavam todos de pé. A empregada não apareceu pra trabalhar, o pão na mesa do café era amanhecido e a manteiga tinha acabado no purê de batatas de ontem. A ração dos cachorros também se rendeu ao fim e a água da Copasa foi interrompida por causa das obras de infra estrutura que estão sendo feitas na minha rua.

Nada há de tão ruim que não possa piorar, não é mesmo? Assim ocorreu então no serviço. Deu tilt no sistema, a net entrou em manutenção de emergência, a procuradoria jurídica deu pau na minuta da defesa elaborada para sustentar a defesa de um projeto, o estagiário faltou ao serviço, um desprivilegiado de bom senso resolve reclamar porque apareceu na foto de m um jornal de olhos fechados, a outra, ao contrario, que espirrou de olhos abertos quer o meu anel que imita águas marinhas, mas que fora comprado na loja de R$1,75. A vizinha desorientada resolve brigar com o filho pelo celular, mas todos os companheiros são obrigados a escutar, até quem esta do outro lado da rua. Enfim, um cheiro bom de café lembra que nem tudo está perdido. Pura ilusão! O café está fraco e doce. As principais operadoras de celular estão sem sinal, menos uma, é claro. Claro também que ninguém usa essa operadora, exceto o plano corporativo do serviço.
O dia parecia interminável. Era capaz de chegar as 20 horas, mas as 18 não chegavam nunca. Quantos aborrecimentos ainda por vir...

Mas a noite chega e com ela a calmaria típica de mares turbulentos. Por cima mansidão, por baixo o perigo.

Estrelas piscando uma após a outra. Cigarro aceso um após o outro. Bêbados que falam sozinhos. Cachorros que passam devagar... Nenhuma janela espia!

ETA vida besta, meu Deus! Já disse outrora o velho Drummond a respeito de “Uma cidadezinha qualquer”, mas é claro que não se referia a Barão de Cocais , que não é uma cidadezinha qualquer...

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Na Porta dos Olhos


Naquela segunda-feira acordei mais leve. Minhas pernas doíam menos que de costume e o sol dera o ar de sua graça; Espanei o pó verde do bolor que encobria meu sorriso e passei um batom... É bom saber-se viva de vez em quando.

A grama ainda retinha algumas gotas de orvalho. O beija-flor em total desrespeito à luz de meus olhos os ameaçava com seu vôo. Lagartixas preguiçosas se esparrodavam no muro como se bocejassem.

Tudo realmente inspirava leveza naquela manhã. Até o meu andar!

Alguns sorrisos, cumprimentos, acenos de surpresa e eu já me encontrava no centro da cidade. Nem percebi o percurso sempre tão enfadonho.

Um ti ti ti meio perplexo chama-me a atenção à conversa alheia. Alguém morreu naquela madrugada que prenunciaria o dia de sol, mas quem? Apurei os ouvidos mas não consegui identificar...

Pouco à frente comentava um velho com o também velho professor na esquina e apontava para o jornal. Pois é. Morreu! E lançaram-me um olhar indecifrável.

Uma espécie de urticária me atacava o corpo naquele momento de pura curiosidade. Mas meu coração não me confidenciava nada! Logo meu coração que sempre me intuiu do que estava por vir... Foi quando me lembrei que deixei meu coração a tomar sol! Logo eu que detesto tomar sol coloquei-o à janela para os primeiros raios da manhã e não o recolhi de volta. Por isso a estranheza do dia, por isso o andar mais leve... Mas espere! “Coração não toma sol”... foi esse um dos títulos do Bartolomeu Campos de Queiros que mais me impressionaram!

Mas ora bolas... Coração que não toma sol é frio, cheio de geleiras... E o meu estava a tomar sol naquela manhã que noticiava a morte de alguém.

O taxista da pracinha se amontoava no radio do carro para ouvir a noticia. Dessa vez eu a ouviria também. A voz meticulosamente litúrgica dizia “Morreu nesta madrugada, no Hospital Felício Rocho, o escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queiros...” Pronto. Não precisava ouvir mais nada.

A literatura infanto-juvenil vestiu seu luto. Sem coração no momento, porque o meu estava tomando sol, não sabia mais o que pensar. Sentir não poderia. `Peguei então emprestado do defunto uma só frase do seu Livro Por Parte de Pai e "Prendia as lágrimas na porta dos olhos"(p.73).

domingo, 22 de janeiro de 2012

Tempo das águas


Não sou amante do verão, praia, sol, cerveja gelada... Curto bem mais o frio, fogão de lenha, caldo quente, amigos, fogueira... O outono e suas temperaturas amenas são bem atraentes e convidativas para uma roda de viola e a primavera é linda, alegre e multicolorida.

Não falei das chuvas? Verdade... Sair para escola com chuva, ir trabalhar com chuva, voltar pra casa com chuva... É muita molhação.Vai indo enche! Choveu consecutivamente por quase dois meses!

Manchas de mofo disputam espaço no guarda-roupa (quase vazio, porque as roupas não secam), nos armários e até as pessoas já cheiram a bolor!

Dias tristes esses dias chuvosos em que o sol não dá o ar de sua graça, o arco-íris hibernou em algum canto do outro lado do continente e os sorrisos deram lugar a uma discreta tromba. Parece que até os céus estão chorando copiosamente a saudade dos dias de sol.

Edifícios se desmoronando, estradas interrompidas, rios enormes e aos solavancos esgueirando-se em pequenas calhas por onde corriam preguiçosamente pequenos riachos..

Água que vem do céu, água que vem do morro, água que vem de comportas abertas, águas muitas que não lavam mas levam... São enchentes levando gente, levando casas, levando ruas, levando animais e tudo mais que encontram pelo caminho.

Meu coração amiúda-se diante desse rastro de morte e destruição.

Mas as chuvas são importantes e por muitas vezes agradáveis! Dormir ao som de uma chuva tranqüila é ótimo! Por mim poderia chover noite sim e noite não. Já dei essa sugestão a Deus, mas acho que ele não a levou em consideração.

Saudades das noites frias de junho!

Cheiro de Dindinha


Quando criança tinha um pequeno travesseiro que carregava comigo pra todo lado. Difícil deixá-lo em casa quando me matricularam no Jardim de Infância, mas dormir sem ele parecia coisa impossível. Era pequeno e tinha um cheiro inconfundível: era o cheiro de minha madrinha!

Não sei se fora ela quem me dera o pequeno travesseiro, mas mesmo depois de mais crescida, quando me fizeram trocá-lo por uma viagem e deram fim naquele pedacinho de pano acolchoado, enredava-me ao vestido de Dindinha para sentir-lhe o cheiro. Claro que ela nunca soube disso.

Maria era o seu nome. Maria Margarida. Simplicidade com nome de flor e cheiro de travesseiro.

No interior, como em Barão de Cocais onde vivo, era comum os afilhados tratarem as madrinhas por Dindinha e é claro pedir-lhes a bênção!

Dindinha abençoava-me a qualquer hora do dia ou da noite por tantas quantas fossem as vezes que eu passasse por ela.

No natal passado ganhei de minha irmã um travesseiro de macela. Bingo! Era esse o recheio do meu travesseiro de quando era criança... É o cheiro da minha madrinha.
Flor que habita os céus há alguns anos, lembro-me dela todas as noites. Cabelos cacheados, risada contagiante, cheiro de macela!

A Macela é um arbusto perene que atinge cerca de um metro de altura. As flores são amarelas, com cerca de um centímetro de diâmetro, florescendo em pequenos cachos. As folhas são finas e de cor verde-claro, meio acinzentada, que se destaca do restante da vegetação do campo. Suas propriedades terapêuticas incluem ações antiinflamatórias, calmante, antidiarreicas, bactericidas, antiespasmódicas, digestivas, relaxante musculares, tradicionalmente, verifica-se seu uso em recheio de travesseiros para crianças e adultos.

Abraço o meu travesseiro de macela e mato saudades da infância.
Abraço o meu travesseiro de macela e atiço saudades da infância.
Abraço meu travesseiro de macela e me aconchego, pequenina, no colo de minha madrinha.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O aumento que não queremos


Quando nos deparamos com situações inesperadas, as quais de certa forma somos responsáveis, mas o medo, a inércia, a própria conveniência nos fazem calar, somos, timidamente, convidados a refletir o excerto do poema de Eduardo Alves da Costa , nos caminhos com Maiakovski...

Quando nos deparamos com o absolutismo de políticos despreparados por com nossa escolha, em numero maior até que o necessário, cutucam-nos os versos: “Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma Flor do nosso jardim e não dizemos nada.”

Então fazem da casa do povo um circo com tambores, microfones e picadeiros e a poesia fecunda dos que silenciam grita apavorada nos versos do mesmo poema: “Na segunda noite, Já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada.”

A legislação estabelece critérios para o número máximo de vereadores que uma câmara pode adotar. Pesquisas indicam que a sociedade é contra o aumento do numero de seus representantes em todo país. Movimentos contrários ao aumento do numero de cadeiras no legislativo tem alcançado proporções magníficas. O povo não quer mais vereadores. Então, porque a insistência? A quem interessa a abertura de novas vagas na Câmara? A resposta é simples... O aumento do número de vereadores somente interessa aos partidos políticos, ou a algumas pessoas em particular, mas as câmaras vem , sem muito barulho, quase que silenciosamente,aumentando o numero de suas cadeiras... E isso aconteceu também aqui!

No site da Câmara de Barão de Cocais vê-se uma enquete que indaga O que você acha do aumento do número de vereadores de 09 para 11? O resultado da enquete aponta que 92,71% dos que participaram da pesquisa são totalmente contrários ao aumento. No entanto, por meio do Decreto Legislativo Nº141,publicado em 27 de Dezembro de 2011, a Câmara Municipal de Barão de Cocais aumentou para 11 o numero de vereadores do município.

Voltam-nos assim os versos de Eduardo Alves Costa? “Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, Já não podemos dizer nada.”


Oi... Psiu!!! Por que você se calou????