Regina Célia é escritora, formada em Letras, membro da AMULMIG _ Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, autora dos Livros Gangorra e Ad versos, alem de crônicas publicadas em jornais e em posts.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Universo Paralelo



Geralda é uma artista, atrevo-me a dizer, inigualável no oficio de fazer mais belas as mulheres a quem se põe a colar, amarrar ou trançar os cabelos a fim de torná-los mais  longos, mais cheios, lisos ou cacheados. Geralda é mestre na arte do mega-hair.

Um trabalho perfeito advém de suas habilidosas mãos durante mais de uma dezena de horas dedicadas a uma única cabeça.

Cansativo? Claro que sim! Mas vale a pena, com certeza! No entanto à dor e ao cansaço adicionam-se pérolas de Geralda e a risada é constante...

Ao longo dos vários anos de trabalho Geralda constatou que os grampos e os prendedores de cabelo (piranhas) possuem um universo próprio para o qual se deslocam  diariamente e de onde ficam a rir-se da busca constante de seus supostos proprietários por encontrá-los... E tudo levava a crer que essa seria uma verdade absoluta, pois não é que os tais prendedores realmente desaparecem como num toque de mágica?

Cheguei a suspeitar que o citado universo fosse paralelo ao universo dos guarda-chuvas,   chaveiros e sombrinhas perdidos. Nunca são encontrados!

Da última visita de Geralda  à minha casa desapareceram três piranhas... Conformada, ela disse que não apareceriam mais e que certamente estavam rindo de nós.

Nunca as ouvi rindo, no entanto, debochadamente, encontrei cinco exemplares na gaveta de minha cômoda! Não apenas os três desaparecidos dias antes, mas cinco!

Seria a minha gaveta o universo particular das danadinhas? Não sei a resposta, mas nas outras gavetas eu não encontrei as sombrinhas, guarda-chuvas e chaveiros perdidos... O universo pode não ser paralelo.


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Renascer










Eis que despertamos para um novo ano. Algumas expectativas e esperanças renovadas, uma imensa bagagem de tristeza e frustrações sobre os ombros e uma grande má vontade de seguir em frente...

Um ano cheio de dores e conflitos ficou para trás e  o desejo sincero de que ele nem tenha existido é verdadeiro! Mas o mundo sobreviveu às profecias e não se acabou. A vida continua para os sobreviventes e, seja apinhada de projetos novos ou repetidos, deve prosseguir.

Uma entrega sonolenta e preguiçosa à desesperança ameaça a paz interior, No entanto, a voraz lembrança do texto “O Menestrel”, atribuído a Shakespeare, sacode o inconsciente para o fato de que “Não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte.” E a gente vai aprendendo também com isso.

É preciso renascer a cada manhã...

‘Bora’ viver?

A partir de agora o blog “Crônicas esparsas” retoma as suas atividades!

Venha comigo nessa empreitada de vida e literatura? E só mais convite, mas espero que você aceite.

Maria









Maria plantou um jardim na sua infância. Eram dálias, crisântemos, vincas e miosótis... Flores coloridas que ela não gostava que fossem colhidas, pois no jardim atraíam as borboletas e os beija-flores. Tão nova e Maria já ensinava uma lição.
Maria se casou e para enfeitar a sua casa, do lado de fora, plantou um jardim ainda mais colorido!Além das flores da infância, plantou hortênsias, rosas, lírios, amor-perfeito, gardênias, perpétuas... Tudo lindo e colorido!
Vieram as borboletas, os beija-flores, outros passarinhos, joaninhas... E o ano todo era primavera na vida de Maria.
Maria é a flor mais linda do jardim. Por Maria os pássaros cantam, brincam... As flores pequenas se  desprendem dos cabos e se transformam em leves borboletas... Por Maria as abelhinhas zombeteiras se enfiam nos seus cabelos e fazem Maria sorrir!
Maria envelheceu e já não conseguia plantar o seu jardim, mas deram-lhe outros... sempre coloridos, perfumados e povoados de seus queridos convidados alados... Maria observava suas flores  de manhã, quando se assentava para tomar sol. Os tucanos e as maritacas preparavam-lhe um espetáculo especial todas as manhãs...
Maria era feliz por isso. E nós que a amamos e amaremos para sempre gostamos de saber da sua felicidade.
Deus buscou Maria pelas mãos para admirar a beleza do jardim do paraíso. Ela relutou, talvez por nosso olhar suplicante, mas foi, inebriada pela beleza dos céus.
O jardim de Maria chorou pétalas  multicoloridas, mal sabendo ele que do céu ela pode também contemplá-lo!
Saudades eternas!

Dezembro/2012

Chá 2


De repente aquele chá, preparado com expectativa e adoçado com ansiedade, não pode ser servido... Se a água permanece em fervura acaba por secar. Se lhe interrompermos o fogo, não escaldará a erva e não produzirá o chá.. Melhor bebê-lo então! Em infusão a erva doce, a camomila, a folha de laranjeira. É preciso calma nessa hora! A leitura bíblica nos lembra, em provérbios 16,1: “ O coração do homem faz planos, mas a resposta certa vem dos lábios do Senhor” Um aroma irresistível invade os ambientes. O coração se tranqüiliza...

O chá que pretendemos com versos e conversas  não foi cancelado, mas adiado! O momento certo, conforme vontade de Deus será de muita alegria e otimismo... Um momento singular para refletir, papear, contemplar... A sua presença será um presente agradável, recebido com muito carinho! Até lá!

Novembro/2012

Chá 1

O dia tem 24 horas para ser vivido. Nessa correria do mundo contemporâneo, não raro nos deparamos com a situação de deixarmos para outra ocasião diversas atribuições que tinham sido planejadas para serem vividas naquele mesmo dia. É a falta de tempo! Essa é a grande desculpa que utilizamos para nossos adiamentos.

Viver, no entanto, não aceita prorrogação re a solução  - pergunte ao tempo! – é deixar o tempo passar! Com ele, alguns sonhos, alguns prazeres, momentos que jamais se repetirão!

Aquele dedinho de prosa com Deus, aquele meditar em oração, aquela contemplação da natureza... Tudo se adia em nome da pressa e acabamos por esquecermos de viver.

Que tal um chá?

Um momento mais íntimo que pode ser acompanhado ou não de uma boa leitura, de uma oração de gratidão, de uma tarde contemplativa... De amigos e de fartos sorrisos!

Um chá que pode ser adoçado com amor ou temperado com saudosas lágrimas!

Considere o meu convite... Voltaremos a falar do chá.

Out/2012

Ao Mestre, com carinho

Entrou outubro e com ele a renovação de esperanças, a celebração da vida, as homenagens que se multiplicam no décimo mês do ano a diversos profissionais.
Todos muito dignos de serem lembrados, todos importantes! Mas um, em especial, merece uma maior consideração: o professor!
Preceptor, professor, educador! Quanta luta, quanto sacrifício, quanto desprendimento e quanta dedicação pela causa, por amor à vocação... Não. Não é  apenas profissão. É vocação! Dom insuflado por Deus. Uma lágrima por cada ser alfabetizado, um sorriso por cada letra desenhada... Só pode ser obra de Deus!
Houve um tempo, não muito distante, em que o professore era autoridade nivelada ao pároco, ao prefeito, ao juiz e ao delegado.
  ainda povos que cultuam a pessoa do professor, como no Japão(dizem) onde o  único profissional que não precisa se curvar diante do imperador é o professor, pois segundo os japoneses, numa terra que não há professores não pode haver imperadores.
Curvo-me, portanto, em homenagem aos professores... todos! E dentre tantos que passaram por minha vida, abraço, merecidamente, Dona Zélia de Barros Duarte, a quem fui submetida à minha primeira avaliação  de leitura. Uma vez aprovada, nunca mais parei! Obrigada professores!

Outubro/2012

domingo, 20 de janeiro de 2013

Santo de casa

Eu conheço um homem  que é capaz de transformar sucatas em belíssimos adornos e utilidades. De ferros retorcidos  ele faz móveis, luminárias, vasos, troféus, molduras, relógios, coqueiros, pássaros, borboletgas, souvenirs... O ferro oxidado brilha ao seu toque e o metal brilhante se enferruja com suas pinceladas.

Eu conheço um homem, operário aposentado, que fez de sua busca uma arte e de seu talento uma alquimia. Ao seu toque, nada fica da mesma forma.

Seus trabalhos como artesão já ganharam o mundo e sua simplicidade o torna único.
Eu conheço um homem que transfere para a aspereza do descartável a singeleza de seus sonhos de liberdade, a expressão de seus desejos...

Gilberto Antonio de Paula fez de Barão de Cocais a sua terra. Aqui ele é de casa, mas diz o ditado que  Sano de casa não faz milagres! Ele faz. Eu acho.

Guerreiros medievais fazem a sentinela de sua obra, anjos trombetam a anunciação e o homem, que clama por liberdade, transforma gaiolas em luminárias na tentativa vã de aprisionar a luz. Porém mantém as portas abertas.

Set/2012

Quimeras





Uma pequena viagem pela história , um mergulho na poesia, um momento de sonhos... Um convite. Vem comigo?

A cidade real de Pasárgada foi fundada pelo rei Ciro quase quinhentos anos antes de Cristo, para ser uma das capitais do Império Persa. Em 530 a. C., o Império Persa se estendia do Mar Mediterrâneo oriental até o Rio Indo (rio que corta a atual China, Índia e Paquistão na Ásia). Para se ter uma idéia  da extensão territorial do Império Persa,conquistado pelo rei, Ciro,  compreende os seguintes países atuais: Irã, Iraque, Síria, Líbano, Jordânia, Israel, Egito, Turquia, Kuwait, Afeganistão, parte do Paquistão, parte da Grécia e da Líbia.

A cidade de Pasárgada era um dos domicílios oficiais do rei e significa “Campo dos Persas, um local de descanso do guerreiro, um lugar bonito e agradável de se viver.

Manuel Bandeira provoca-nos com o poema “Vou-me embora pra Pasárgada”, que constituiu um “arroto” poético, uma fuga para um lugar distante e seguro, prazeroso e cômodo e que sendo “amigo do rei” não abdicaria da efetiva receptividade e comprometimento do governante.

Todos queremos um paraíso de delicias  no qual possamos usufruir apenas de bons momentos, um lugar que, tal qual o poeta, quando estivermos tristes, mas tristes de não ter jeito! Quando de noite nos der vontade de nos matar,possamos nos apegar à idéia de que somos amigos do governante, o qual tudo fará para que estejamos bem.

E é nesse estágio de contemplação, de letargia, de descrença real que vive quase todo país hoje. Submersos e submisso no chamado período eleitoral, sonhamos com  um lugar bom de se viver, um lugar que nos proporcione comodidade, segurança e prazer... Que tenha  um  governante amigo da população, alguém que emane do povo e conheça as mazelas de seu povo.

Quimeras? Talvez.

Por uma possibilidade de sonho, por uma possibilidade real que faça de nossa terra um jardim de delicias, uma nova Pasárgas! É pra lá que eu vou.
Agosto/2012

sábado, 4 de agosto de 2012

Apenas



O tempo não nos pede muito... Apenas um pouco de cada vez, mas é implacável! Não poupa ninguém e a todos deixa a marca de sua passagem, seja física ou emocionalmente...

Os avanços tecnológicos, a medicina e a ciência passam o tempo tentando minimizar as marcas do tempo e equalizar as suas afetações.

As rugas aparecem, o corpo fica flácido, os cabelos se orvalham, os olhos serenizam ... quase sempre é assim.

O que, de fato, o tempo nos deixa e nos leva?

Aonde vão parar a  inocência da infância, a vitalidade da juventude, a sisudez do adulto? Porque a criança que existe em todos retorna quando o corpo se curva à ação do tempo, o andar volta a ser inseguro e a memória descarta boa parte do que acumulou ao longo do tempo?

Não se ganha e nem se perde tempo, pois ele não se detém. O tempo não pede licença para criar dunas ou abrir caminhos. O tempo apenas passa...

O tempo não dá explicações. Leva o que lhe convém  ou deixa-nos o que nos convém? Não permite barganha, não aceita oração. O tempo, chronos ou kayros é soberano, senhor de todas as coisas, pai dos segundos que formam séculos, pai tirano que aos filhos devora.

O tempo não para!

Ele passa incessantemente. O tempo apenas passa.



Belinha


Belinha chegou com seu companheiro para passar algumas horas conosco. Somente o tempo de sua nova dona cumprir a jornada de trabalho e ir-se embora. Chegada a hora, a nova dona partiu levando apenas o companheiro de Belinha, deixando-a para que um parente a buscasse posteriormente. Mas esse dia não chegou.

Quando percebemos já estávamos todos envolvidos por aquele ser peludo e carinhoso.

Uma linda convivência que durou anos! Belinha enfeitava a janela, apossava-se das poltronas, rosnava para qualquer estranho que ousasse dirigir-lhe um olhar desafiador ou roubar-lhe a companhia

Belinha ia ao salão de beleza, vestia roupas de acordo com a época, era cuidada pelas doces vizinhas nos finais de semana e procurava a saudade nas paredes da casa de pau-a-pique.

Um dia foi morar com a Felicidade, arrumou um namorado, teve filhotes...

Um dia Belinha se foi.

Deixou seu carinho gravado em nossa memória. Sua existência na tela pintada por Leco. Sua presença ainda muito viva no meu coração.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Nas Entrelinhas 1


A Conferencia da ONU estende-se por horas  fazendo buracos n¨água... Planeta sustentável, viva a natureza, preserve o meio ambiente... Toneladas de papel para se escrever sobre isso e mais árvores sendo derrubadas para fazer o papel que se consome ao se pensar na preservação ambiental.

A Rio +20 estuda alternativas que foram apresentadas na ECO 92 e que também não saíram do papel. Mais do mesmo!

Pesquisas indicam que para se produzir uma tonelada de papel (cerca de dez mil jornais nos quais se publicam, diariamente, as notícias da conferência) são necessárias de 10 a 20 árvores de tamanho médio... Haja árvore para ser derrubada!

Meu quarto é um bom lugar pra ler um livro... e tudo me divide! Meus olhos cansados e fragilizados me lembram que a idade impõe algumas limitações (capricho da mãe natureza) e a leitura é adiada.

É preciso que as letras sejam maiores, mas isso gastaria mais papel e mais árvores teriam que ser derrubadas para satisfazer às necessidades de uma leitura mais confortável . Por enquanto, basta o dia frio.

Um dia frio. Um bom lugar pra ler um livro... Esse tem sido um dos meus desejos nos últimos tempos! O primeiro dia do inverno foi quente, mas para não aprofundar no assunto valho-me das máximas típicas de nossos avós: enquanto o homem não respeitar a natureza, sofrerá as conseqüências de sua ira. Aquecimento global.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Quero de Novo Cantar


Botei reparos em uma fotografia na qual meus olhos transmitem uma tristeza sem pedigree, como a tristeza de Adélia Prado. De onde viria aquela sombra? Por certo eu cuidava da vida antes que a morte ou coisa parecida viesse a arrastar-me, como magnificamente cantou Belchior em Na Hora do almoço.

Deixo que a  fotografia marque a página do Livro de Neruda que já li diversas vezes e vou-me embora meio que triste. O poeta chileno (universal) me antecipara:"Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.” 

Noticias tristes se amontoam nos telejornais. O vizinho triste ouve uma canção muito triste, do Renato Russo,  também e vem de repente um anjo triste perto de mim...Tiro um CD da pilha e o coloco no aparelho de som . quero um samba! Uma bênção! Afinal, “ É melhor ser alegre que ser triste”, mas o poetinha atrevido, Vinicius de Morais,faz uma elegia à tristeza (des)necessária de cada dia: “Mas pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza...”

Gente, o sol ta lindo lá fora, propicio à uma bela leitura dos poemas de meu amado  Quintana! “Eu escrevi um poema triste e belo, apenas da sua tristeza.”

Quer saber? Ta Na Hora do almoço! (Ainda sou bem moço pra tanta tristeza!)