Regina Célia é escritora, formada em Letras, membro da AMULMIG _ Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, autora dos Livros Gangorra e Ad versos, alem de crônicas publicadas em jornais e em posts.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Para sempre Ano Novo


Mais um ano chega ao fim. Calendários amarelados, agendas despencando... Eis o sinal dos tempos! Os cabelos ficam mais grisalhos e requerem tinta para uma remoçada de fim de ano...

As casas se iluminam, as praças se colorem e as lojas vendem desesperadamente para o aniversário do Menino-Deus, que na verdade ganha muito poucos presentes.

É hora de desejar boas festas! O mundo inteiro se torna uma grande festa e as pessoas são acometidas de uma bondade súbita que preenche latas de mantimento dos que tem fome, calça e veste os desvalidos e os corações se transbordam de satisfação.

Ao se aproximar o primeiro dia do ano as esperanças se renovam, os planos vão novamente para o papel e uma grande gama de energia reaviva o brilho dos olhares. Vida nova é a vida que continua.

A cada dia renasce um ano, mas por que os desejos de um ano bom não renascem a cada amanhecer?Nós somos o mundo e somos nós que fazemos do mundo um lugar melhor...

Por que a solidariedade não se renova a cada dia como ocorre a cada final/começo de ano?

Que se renovem os desejos de paz, os desejos de conquistas, de vitórias, de ascensão... Desejos de vida plena, de mundo sem guerra, sem fome, de ruas sem acidentes, de crianças com pais, de lares unidos e em paz!Desejos de um ano novo a cada novo dia...

domingo, 18 de dezembro de 2011

Momento de Oração


Viver em contemplação tira o mérito da vida. Contemplação é apenas o prenúncio da ação de graças, é o que antecede a gratidão e o reconhecimento. Viver sempre em estado de se pensar em agradecer, não é viver. É desmerecer a oportunidade da vida.

A comunhão com o divino traz em si a responsabilidade da comum união, da continuidade da obra, das ações de criação.

Viver como pedintes humanos que , espertamente, barganham bênçãos de Deus também desmerece o som da vida. A oração pressupõe a humildade de se reconhecer humano, mas não pode limitar o ato de viver.

Oração pelo amor é amar.

Oração pela vida é viver.

Oração é desejo em ação. É constância e dedicação de propósitos, é ser in em tudo que a consciência pereniza e out em tudo que furta o sono e os sonhos.

O sono renova a força física. Os sonhos a força da alma!

Confesso minhas culpas a Deus e ao mundo. Peço perdão e renovo os meus propósitos de ser melhor. Assim, que Deus me ajude!

sábado, 10 de dezembro de 2011

Torre de Babel


O linguajar de nossa gente é de uma riqueza sem fim aos ouvidos afinados. São tantas corruptelas, tantos desdobramentos e tantas peculiaridades, que as vezes nos perdemos no meio da cantilena e corremos o risco de desafinar... (risos)

Nossa terra recebe acentos dos mais diversos estados brasileiros e o povo a tudo se acostuma.

É comum ouvirmos “mano”, “meu rei”, “trilegal”. E todo mundo se entende, uai!
Ao presenciar um simples cumprimento de compadres, ouvi uma resposta comum”ah, to pelejando!”. Sim, pelejar é muito comum mesmo, pois significa lutar, disputar, combater. Ora, mas lutar é honroso, meritório... Por que o tom de piedade? Parece sim que a luta já está perdida... Todos se referem a peleja, por essas bandas, como algo ruim.

Eu nunca gostei de pelejar, mas sou uma batalhadora, obstinada por vencer desafios... Pelejar mexeu comigo. Oh , peleja!

Vejo o Gordo (Antonio Domingos), em boas risadas, dizer a Luciana que está pelejando! E isso é bacana! Pelejar sorrindo, pelejar vencendo as maiores dores, os maiores desafios...

É , a nossa língua por muitas vezes nos prega peças e uma mesma palavra pode ter significados diferentes, dependendo da entonação que colocamos na fala. E eu pelejo o tempo todo para não pelejar...

terça-feira, 22 de novembro de 2011

TRIBUTO


Dia desses levantei com a sensação de que era uma data importante, dessas que não se pode esquecer, como aniversário de namoro, aniversário de irmãos, pais ou amigos. No entanto nada me vinha à mente cansada naquele dia. Do que estaria eu tentando me lembrar?

Passou o dia sem que a lembrança da importância da data se revigorasse em minha mente, De repente um e-mail, uma simples mensagem eletrônica que tinha ao fundo a conhecidíssima “Canção da América” gritou aos meus ouvidos “mas quem cantava chorou ao ver seu amigo partir”. E era isso! Aquele era o dia do aniversário de um grande amigo que partiu (cedo demais, como dissera o Renato Russo).

Gerson Antonio Soares faria aniversário naquele dia, caso sua vida não tivesse sido ceifada há alguns anos.

Dor, saudade, lágrimas disputavam lugar em minha mente e em meu coração. Mesmo após o seu distanciamento físico, a memória teima em eternizar o que amou. Tuniquinho deixou saudades! Mais que isso até, Tuniquinho deixou lições... Inúmeras delas! E sua existência fez parte, por anos, da minha vida e da vida de Barão de Cocais.

Companheiro de trabalho, amigo leal, destemor, coragem... Um pedido de justiça! É preciso lembrarmo-nos de Tuniquinho! É preciso dizer seu nome repetidas vezes para que a nossa cidade não se esqueça de sua existência benéfica, de seu trabalho duro, de sua vida exaurida.

Palmas na cadência do meu coração!Seja lenda Tuniquinho! Seja um mito recontado para falar de amizade e de justiça! Que viva para sempre em nossa memória, Abreijos, amigo Tuniquinho!

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

EM ALGUM LUGAR ALÉM DO ARCO IRIS


Amanheci pálida hoje. A chuva que se precipita mansa, já dura três dias. O sol ameaça vir ao longe e um arco-iris bem fraquinho pode ser avistado com um pouco de boa vontade.

De posse da cor amarela, ouvi, consecutivamente, três cds do Vander Leendo só na parte da manha.

Cantarolei Eric Clapton na volta do dia.

A chamada em espera do telefone da prefeitura, quando funciona, ecoa todo o lirismo de “Iz” Israel Kamakawiwo’ole. A espera às vezes me faz chorar...

Um dos meus celulares traz consigo o tema de Rambo e me chama à reflexão de que o próximo não deve ser um peso na vida, ele é meu irmão... Aff! Preciso colorir-me, porque estou bege!

Deveras, meu dia está em tons pasteis e se nada acontecer pra me enrubescer um pouco, não há de demorar muito eu vou acabar querendo ser uma tarde gris...

Cai a noite mudando as matizes da paleta que coloriu o dia. Para encerrá-lo, assisti, repetidas vezes, a um trecho de um show, em vídeo, com provavelmente uma das músicas mais lindas e cortantes dos últimos 35 anos, a velha canção eternizada por Rod Stewart e seus não menos eternizados cabelos desalinhados: I don’t want to talk about it! É incrível como a voz rouca do Rod (ai que intimidade...) e seu horroroso paletó amarelo conseguem fixar-nos diante do vídeo. É impossível parar de olhá-lo. Parar de ouvi-lo seria pecado dos mais graves... O solo de sax esmaga meu coração e é tão lindo que merece nunca acabar!

Não celular, por favor, não toque agora! If I stay here just a little bit longer…If I stay, won't you listen to my heart? Oh! O meu coração foi quebrado, mas eu não quero falar sobre isso.

ECO VIDA


Nariz escorrendo, pirulito tipo chupeta na Mao e um velho carrinho de plástico debaixo do braço. Assim seguia Buiú sua mãe. Catadora de materiais recicláveis que, por muito tempo, tirou do antigo lixão o sustento da casa.

Hoje a realidade é menos mórbida, mas não menos pesada. Ha tempos , deitara centenas de quilos de latinhas e papelão sobre sua femilidade. Não fossem uns brincos descascados a pender-lhe pelas orelhas, seria uma incógnita. O boné e o macacão lhe atribuíam um severo ar masculino.

Mesmo ciente de estar na crista da onda, vivendo de maneira ecologicamente correta, sua boca já não sorria e faltavam-lhe os dentes da frente. A propósito, apesar da idade recuada, Buiú também não os tinha.

O menino, porém, não temia os olhares sociais e punha-se a sorrir quando espetava a bunda de uma tanajura distraída, ou quando capturava mais um besouro para seu pequeno pelotão enclausurado na latinha de castanhas encontrada no galpão dos catadores. Buiú possuía alguns batalhões de formigas e uma caixinha de abelhas...
Mas a mãe desconhece o poderio do filho catarrento. Muitos bichinhos inocentes aguardam o seu comando.

Não, não é pecado! Pecado seria impedir que Buiú fosse general de seu exército.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Um Rei chamado DAVI


Davi foi um Rei de Israel. Pequeno em tamanho, mas grande em suas ações, foi vitorioso em todas as suas lutas e derrubou até um gigante! O rei Davi também foi herói admirado pelo seu povo. Deus lhe concedeu sabedoria e força. Em tudo Davi louvava a Deus com musica, dança e poesia...

Assim também é nosso Davi. Pequeno em tamanho e idade (apenas 5 anos), mas grande em sabedoria e determinação. Davi vem vencendo as suas lutas e pretende derrubar um gigante tirano que afugenta as forças de pobres, ricos, adultos e crianças. Um gigante que rouba a saúde e traz sofrimento, mas Davi sabe cantar, dançar e recitar poesias que o tornam encantado e encantador.

Davi figurou em um grande cartaz no ano passado vestido de herói, mas não sabia que, de fato, era um grande herói para seus pais, para a avó, para os que o admiram. Davi vencia, dia a dia, as batalhas impostas por uma doença que ninguém sabia que ele tinha.

Davi dos Reis tem Rei até no sobrenome!

Dia desses, em que eu completava mais um ano de vida, eis que a voz suave, mas firme, de Davi, ecoa no meu celular para me desejar felicidades... Ah felicidade! Que grande presente aquela vozinha a falar comigo e arrancar-me lágrimas de puro contentamento!

Hoje meu coração envia um rogo a Deus e manda um recado aos pais de Davi... Manda um recado ao próprio Davi: O SENHOR te abençoe e te guarde; O SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti; O SENHOR sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz.(Números 6:24-26)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

PERO QUE LAS HAY, LAS HAY


A bruxa tá solta! Ouvi o vizinho dizendo aos pedreiros logo pela manha. Daí a pouco o filho mais velho reclama do para casa e diz que não vai a escola e não gosta da bruxa da professora. Termo recorrente hoje! E eu, bruxa que sou, sei que elas existem; embora não creia nelas.

Sofro de bruxismo e tenho corujas enfeitando o meu quarto. Mal uso vassouras para uma faxinada na casa, mas para voar, jamais! Não faço feitiços, mas encanto! Quase me classifiquei como fada agora!

Uso preto mesmo de dia, mas tenho alergia a aranhas e suas terríveis teias. Morro de nojo até de formiga, o que diria das baratas?! Caldeirão pra mim, só de sopa!

Conheci uma bruxa má, daquelas que fazem feitiço, tem dentes abertos e não sabem perdoar... Não disse, mas seus olhos me maldisseram e penso – não creio – que ela tenha costurado meu nome na boca do sapo. Só que antes de morrer de fome e de agonia, o coitado cagou o papel que tinha meu nome.É, na boca do sapo tem dentes!

Ando pouco me lixando para as bruxarias dessa velha má. É uma vítima da própria ambição e inveja. Há anos se contenta com as sobras de tudo o que invejou. Não teve nada realmente de seu, nada proveniente de seu mérito. O que traz como seu pertenceu a alguém que invejou. Pensa então que é capaz. Pensa que é feliz.O sapo a olha indignado, como quem diz:sai desse corpo que nao te pertence!

A propósito, a bruxa tinha mesmo que estar solta hoje... Dia 31 de outubro. Viva o dia das bruxas!

domingo, 30 de outubro de 2011

MANIAS


Tenho algumas manias... Coisas da idade? João Bosco diria, em Bijuterias que sim... Na idade em que estou aparecem os tiques, as manias! Coleciono anjinhos ( de todos os tamanhos), coleciono corujas( fofas!), detesto poeira nas caixas de tomadas e apagadores, nunca mudo as coisas de lugar, sejam móveis, roupas, enfeites,etc.,

Agora dei de colecionar sorrisos- perpetuo-os na memória- poesias, livros, boas músicas... Na verdade não é de agora.Já trago comigo como “defeito de nascença”. O novo mesmo é colecionar show do Vander Leendo! Lindo mesmo! Um sonho de consumo! Musica boa, altura boa, cara boa... TDB! Ai, ai...

Ei-lo no palco reunindo suspiros. Realmente, romântico é uma espécie em extinção, diz a voz que move nossos corações.
No coração mais infeliz, pode crer no que eu digo: Não vou ser triste e nem chorar por mais ninguém... E eu creio. Tudo bem, vou ficar legal. Sabe o que eu queria agora, meu bem...? Sair chegar lá fora e encontrar alguém... Nascer menino, morrer poeta!
Quero outro show do Vander Lee. Ops, Vander Leendo!

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Cantiga de Bem Dizer


Cresci pedindo a bênção aos mais velhos, aos pais, padrinhos, tios, tias, avós... à doninha da esquina que morreu solteira, ao padre velho da paróquia... Na verdade não pedia a bênção, mas simplesmente “bença”!

Bença, mãe! Bença, Pai! Já vou... E ia feliz, porque Deus certamente ouvia o pedido deles e me abençoava. Os pais bendizem, Deus abençoa! Assim cresci (mais pros lados que pra cima, mas cresci. Pois criança que não pede a bênção, não cresce – dizia a minha avó!)

Quando me vi, estava com apenas 8 anos e já era tia... E bem cedo comecei a bendizer os pequenos, pedindo a Deus que os abençoasse!

O tempo passa, mas certas coisas permanecem em algumas famílias e na minha, o hábito de pedir a bênção não envergonha a ninguém... Nem aos velhos e nem aos novos.
Hoje surpreendeu-me a caçula das sobrinhas, que conta com 5 anos incompletos.

Raramente a ouvimos pedir a bênção, mas estende a mão direita aguardando o rogo divino, beija-nos a face e oferece a bochecha para um beijo habitual. Mas ela quer seu lugar ao sol, quer se posicionar e, a contar pela predisposição dos pais em manter-lhe filha única, tende a não ter sobrinhos a quem abençoar.

Chegou a casa avoterna (casa da avó) e rapidamente tomou as duas cadelas de estimação pela pata direita dianteira, uma por vez, e disse “bença bençoe!” Lindo gesto de bendizer!

Olhamo-nos todos em silêncio. Era isso que ela nos ouvia dizer amiúde... “bença bençoe!” e não “Deus a abençoe”, como realmente falamos. É essa cantilena ao mesmo tempo lenta e rápida que os mineiros – e só os mineiros – possuem.

Embora não tenha compreendido bem as palavras que proferimos, captou bem o seu significado. Grande sujeita que já é, bendiz aos pequeninos.

Bença bençoe todos nós!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Enquanto a Caravana Passa...


Sinto o bafo dos que pensam insultar-me ao me acusarem de tola e viro o rosto, não para nova baforada como faria Jesus, mas para não aspirar o hálito mal cheiroso que emana dos que não crêem nas pessoas. Eu creio.

Espreito esquinas de onde surgem olhares esquivados sobre a vida alheia. Passo reto. Indiferente àqueles que já vi, mas finjo que não. Metida! (Sussuram)

Sensibilizo-me com o cãozinho atropelado, com a criança que calça dois pés diferentes de chinelo, com a tremura dos joelhos do velho que teme atravessar a rua na passagem de pedestres... Falo sozinha, rio de mim mesma e ralho com alguns de meus pensamentos abusados!Chamam-me ridícula por isso.

E eu acho a palavra ridícula perfeita!

É ridículo, deveras, verter lágrimas por coisinhas tão bobas! É ridículo amar! Ser feliz, então, é mais que ridículo, mas a palavra “ridículo” é tão perfeita que não carece de mais nada para se fazer entender. Assim, todos querem o ridículo, mas temem o ridículo e dizem que é ridículo o ridículo...

Enquanto isso, vou a passos lentos, tolamente sorrindo, às vezes chorando,. Ridiculamente sonhando e na peleja para me manter tola , metida e ridicula. Mas prenhe da certeza de ser bem diferente, ou seja, indiferente aos cães que ladram.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Cones Malditos



Uma simples volta ao centro de Barão de Cocais é suficiente para identificar o incrível aumento do tráfego viário de nossas ruas. Milhares de veículos disputam os pouquíssimos locais de estacionamento in tesi disponíveis.

Pedestres se amontoam próximos às passagens demarcadas para sua travessia à espera de que o bom senso permita o deslocamento em segurança. Alguns motoristas param e acenam para a travessia dos que esperam, mas nem sempre as motos que os seguem colaboram e saem costurando entre os carros que aguardam e os pedestres que se arriscam...

Atendendo a pedidos, peço licença aos leitores para colocar dois cones sinalizando o comentário a seguir:
(abre cone) Esses instrumentos para sinalização viária consistem em um dispositivo de controle de tráfego, auxiliar à sinalização, de uso temporário, utilizado para canalizar e direcionar o tráfego e delimitar as áreas. Em Barão, a policia o utiliza, frequentemente, próximo a Praça Nossa Senhora Aparecida, exatamente para direcionar e canalizar o tráfego no local, mas se esquece que o uso deve ser temporário e os cones ficam ali, dia e noite! Mototaxistas, no uso irregular de usa profissão, saem utilizando da serventia dos cones para delimitar áreas e tomam posse das vias públicas e dos poucos locais livres para estacionamento, como áreas privativas. E são muitas! A farmácia – ia me esquecendo – apesar de possuir sinalização específica de estacionamento para clientes permitido por tempo limitado, também cooperou com a fábrica dos cones e tascou mais dois ali! O dono do mercado coloca caixotes em lugar de cones, o lojista se esmera em manter seus cones limpinhos, a loja de móveis, que possui uma ampla área para ser utilizada como estacionamento para clientes, monta o seu show room de colchões e sofás do lado de fora e coloca duas cadeiras plásticas amarradas por uma fita zebrada, impedindo que o bobo do cliente estacione para fazer as suas compras e, aos poucos, todos vão delimitando suas áreas , que não podem ser do cidadão comum, nem do cliente, nem do ciclista... As áreas estão demarcadas por seus proprietários com os “cones malditos”!.(fecha cone)

Uma feiúra total, é o que se pode ver. Comparemos o comercial de veículos, em que os pôneis malditos cantam odeio barro, odeio lama... não vou sair do lugar - Os cones malditos insinuam “odeio carro, eu sou sacana, não vou sair do lugar!

Se você não picar o pé em pelo menos um cone maldito de Barão de Cocais essa musiquinha não vai mais sair de sua cabeça... ♫ ♪ La,ra,la, ra la, la, la ♫ ♪ (que nojinho!)

domingo, 2 de outubro de 2011

Admirável semana nova


Você acaba de acordar e passa pelo espelho antes de ir ao banheiro. O que vê? Uma cara amassada, remela nos olhos, os cabelos de pé, que acordaram muito antes de você! Claro, você foge daquela visão medonha , mesmo que more sozinho.

Se é homem, a barba despontou desalinhada e com dezenas de fios brancos que não estavam ali no dia anterior...

Se é mulher, clama por um photoshop no espelho (aquela não pode ser você!).

É assim com todo mundo! A realidade nua e crua é essa: somos pessoas normais e precisamos de um tempo para ficarmos aparentemente sociáveis.
Um banho, uma escovada nos cabelos, água fria no rosto e já vai começar a segunda-feira.

Quase nunca acordamos, de verdade, para a vida antes das 9 da manhã de uma segunda-feira. Desde as 8 horas podemos já estar em reunião, mas nosso cérebro somente processa as informações depois que o famosíssimo relógio biológico (suíço) ativa nossos neurônios.

A semana promete!

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

QUE RUFLEM OS TAMBORES


Esta semana assisti a uma das cenas mais desagradáveis de minha caminhada profissional. Em cumprimento a determinação superior compareci a uma reunião ordinária da Câmara Municipal na terça-feira, dia 13 de setembro, às 19 horas.

Após declarada aberta a sessão, em nome de Deus, o local, que deveria ser a casa do povo e tratar de assuntos de interesse da coletividade fora transformado em uma arena de gladiadores.

Por um lado, os trâmites protocolares e regimentais de uma reunião previamente agendada, seguindo o ritual oficial. Por outro, homens de preto alheios às intermináveis leituras de atas e expedientes que pautariam a reunião.

Formidavelmente, todos os vereadores compareceram, seja por cumprimento do dever, seja por interesses escusos de se fazerem ouvir pela transmissão da radio local, penetrando os lares e violentando a vergonha dos ouvintes que se dispuseram àquela tortura.

Sim, tortura! Horas ao som de microfones cuspidos diante do horror do melodrama representado, na lateral , quase a fazer chorar, tamanha a respeitabilidade proclamada por quem se veria, brevemente, desmascarado diante de todos os presentes.

Um pouco mais adiante, dedos em riste acompanhados de adjetivos nada elogiosos à excelência ofendida. Uma catarse!Todos falando ao mesmo tempo como em Babel, cada qual em sua língua.

Que ruflem os tambores!

Tivesse sido engraçado tudo o que se passou ali, o prédio poderia ser coberto por lonas coloridas e teríamos um grande circo. Claro que os palhaços seríamos nós! Mas como a cobertura é de laje, por pouco não se confirmava no local um hospício. Loucura o que se passava diante de nossos olhos e invadia nossos ouvidos.

Felizmente atitudes enérgicas e emergenciais foram tomadas a tempo e o microfone extasiado foi desplugado da caixa de som.

Diz o velho ditado que de médico e de louco todo mundo tem um pouco, mas alguns são avantajados nesse quesito. Em se tratando de uma reunião de excelências, poderíamos dispensar tanto o aspecto médico como o louco... Tenso isso!

E apesar da tensão, um certo alivio pairou no ar.

Quase sem condições de retorno a assembléia seguiu seu curso alem do normal até depois das 23 horas. Paranormal? Anormal?Nada normal.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Conversa Afiada


Em tempos modernos pouco se sabe sobre valores. Financeiramente falando ainda restam algumas noções , embora poucas. Mas os valores morais, familiares, fraternais, humanos, cadê? Aonde foram parar? Por que as famílias, as escolas, as empresas, a sociedade não conhecem mais os ditos valores, dos quais podemos citar a verdade, a retidão, a paz, o amor, a não-violência, o respeito, a ética? Oh anos de sexo, drogas e rock and roll... Era este o mundo de libertação tão sonhado?

É hora de acordar para uma existência mais humana, mais cidadã, mais patriota! Pais e filhos que não se respeitam, não respeitam o vizinho, não respeitam os professores, não guardam os ensinamentos dos mais velhos.

Guardar ensinamentos é algo muito cafona mesmo... O mundo de hoje é de transferências diretas em up load e informações instantâneas, em tempo real... Jus t in time... O que se guarda é obsoleto, não é mesmo?

Numa sociedade em que impera a violência, a mentira, a corrupção, o desamor, o desrespeito falar em valores morais, valores humanos pode parecer ridículo! Não me importo! Ridiculamente clamo, imploro, insisto para que pais, educadores, igrejas, polícias, poderes executivo, legislativo e judiciário se mexam!

Coisa linda uma criança pedir a bênção aos pais, tratar a professora com dignidade e respeito, reconhecer nas diferenças as semelhanças, marchar em 7 de setembro, fazer barquinhos de papel em dias de chuva...

No entanto, como a ética entrou em nave espacial e zarpou deste mundo, os noticiários não cessam de exibir pais que atiram filhos pela janela, bulling em todos os lugares, arrastões de crianças aterrorizando lojas nas grandes cidades...

As escolas tinham por meta a formação de homens e mulheres de bem e reprovavam, faziam repetir o ano até que se aprendessem as lições, oferecendo uma nova chance de ser “gente”, mas e hoje?Não reprovações... O sistema visa às estatísticas. Não se fala em educação sem falar em números, metas numéricas, índices. Alguém já viu a estatística dos cidadãos ativos e de bem formados para o mundo? Mas certamente já reconheceu, estampado nos jornais, o rosto de um conhecido que foi preso, foi morto ou foi agredido.

Boa parte das igrejas deixou de lado a espiritualidade e se tornaram alavancas sociais gritando pelos excluídos, pelos pobres, desvalidos... Aderiram ao Movimento dos Sem terra, sem teto, sem vergonha.

O que faz o mundo ser mais digno para se viver? Você já parou para responder a essa pergunta? Em que estamos contribuindo para que nossos filhos tenham um mundo melhor ou para que o nosso mundo tenha filhos melhores?

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Falando Sério


Passei a tarde ouvindo Chico E dentre as suas belas canções ouvi , repetidas vezes, Tanto mar, que reverencia a “Revolução dos Cravos”, a qual pôs fim a uma longa existência da censura e ditadura de Salazar nas terras lusitanas. O cravo vermelho, símbolo da nação portuguesa, foi distribuído pela população agradecida, aos soldados que se rebelaram contra o regime salazaista, que o exibiam nas lapelas, nos rifles e canhões, simbolizando também a paz. Vontade de ter estado lá!

E vem o grito pacifista antinuclear de Rosa de Hiroshima, retumbando no fundo de nossas mentes e corações como espasmos antiatômicos; O fino do brega entoa “E viva a Rosa”, nos barzinhos , os músicos não param de cantar velhas cantigas, que desejam que o cheiro de uma flor perfume a América do Sul ou que prometem:na mão direita rosas vou levar!

Drummond associa a Flor e a náusea e garante: Uma flor nasceu no asfalto. É feia, mas é uma flor! E a essa altura do campeonato, uma rosa nunca mais desabrochou...Volta o Chico cheio de interrogações sobre o que está havendo com as flores de seu quintal: O amor-perfeito, traindo; a sempre-viva, morrendo e a rosa, cheirando mal! Falando sério... eu queria não falar.

Sinto coçar a palma das mãos e quando isso acontece, falo pelos cotovelos.

Intuem-me os anjos de luz a falar pelos oprimidos, pelos desvalidos e fracos. Os mosqueteiros se travestem de anjos e fazem-me crer no amor, na justiça e na paz...

Falando sério, eu queria não falar...

Mas pra não dizer que não falei das flores - tal como Vandré! – Aproxima-se a primavera e os jardins explodem em botões multicores... Os ipês amarelos estão que é uma beleza!

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Um Toque


Ao longo de nossa existência tocamos as pessoas... às vezes de forma muito direta e profunda, às vezes superficialmente, noutras quase não se sente o toque, mas não passamos desapercebidos. Nossos gestos, nossas ações, nossas intenções afetam aqueles que nos cercam, inevitavelmente. É como um deslocamento de ar... um sopro, um vento...

Um levantamento superficial nos aponta as principais movimentações de ar e que podem ser comparadas à maneira como tocamos as pessoas:

Vento: termo genérico que identifica o ar em movimento, independente da velocidade

Brisa: é um vento de pouca intensidade,

Ciclone: Caracteriza-se por uma tempestade violenta com velocidade superior a 50km/h

Furacão/tufão: vento circular forte, com velocidade igual ou superior a 119 km/h.

Vendaval: vento forte com um grande poder de destruição, que chega a atingir até 150 km/h. Ocorre geralmente de madrugada e sua duração pode ser de até cinco horas.

Tornado: é o mais forte dos fenômenos meteorológicos, menor e mais intenso que os demais. Com alto poder de destruição, seus ventos atingem até 500 km/h.

Arroto (nome vulgar para eructação), freqüentemente acompanhada de som característico, ocorre quando gases do estômago são expelidos através da boca. É causada, em geral, pela liberação do ar engolido ou de dióxido de carbono produzido no estômago.

Pum, Peido, Flatulência ou flato (do latim flatus, sopro) é uma ventosidade anal que pode ser ruidosa ou não e tem um cheiro fétido

Parece engraçado, mas o que fazemos é como o vento! Não se vê, não se aprisiona, mas não dá pra não sentir. Você já parou para verificar de que forma toca as pessoas: Qual o seu poder de ação sobre elas? Quais os efeitos você deixou depois que partiu?

Quantas vezes você é uma brisa que refresca, acaricia e faz sentir bem: Quantas vezes é um ciclone ou um tufão que faz temer, é violento e assustador?E aquelas brigas de madrugada, que parecem não ter fim, não podem ser comparadas a um vendaval que destrói sonhos e projetos? Um tornado... esse atinge ainda mais pessoas! Seu poder de destruição é arrasador e deixa um rastro de tristeza e sofrimento (Deus nos livre de agirmos como um Tornado!). Coisa triste é tocarmos as pessoas pela boca... como um arroto! Palavras ditas em ocasião inoportuna que podem causar constrangimento e mal estar... e o Pum então? É o que geralmente precede uma cagada. Se de repente seus gestos começam a afastar as pessoas e elas não resistem a uma cara de nojo, cuidado! Você está prestes a jogar titica no ventilador e isso não é nada bom!

domingo, 21 de agosto de 2011

Contrapondo o constrassenso



Viver em uma cidade do interior, em franco desenvolvimento, localizada dentro de um raio de cem quilômetros da capital, tem vantagens e desvantagens. A sobrepujança da manutenção da cultura e da tradição, níveis menores de violência, acesso à natureza, patrimônios e sitios são algumas das características incluídas nas vantagens. As desvantagens, por sua vez, se aplicam à inevitável aculturação, que modifica as tradicionais performances interioranas, às ínfimas oportunidades de lazer e entretenimento, à absoluta falta de concorrência que inflaciona o custo de vida, aos cartéis instituídos, ao pseudo- poder dos playboys filhos de papai ou bastardos filhos do meio social. E é neste aspecto que firmaremos nosso olhar.

Frutos viçosos de uma geração emergente, mal completam 18 anos e já possuem um automóvel. Os de pais abastados circulam com veículos importados. Outros possuem veículos mais populares, mas com algo em comum aos primeiros: o estrondoso dom automotivo, que, não raro, valem mais que o próprio carro!

Interessante, mas fora da meta proposta, é que os rapazes das gerações anteriores sonhavam, com um carro, lutavam para adquiri-lo, a fim de levar a namorada para um passeio, uma viagem, etc. Hoje, tão logo deixam os cueiros, assumem o volante, enchem os carros de outros rapazes e saem desenfreadamente pelas ruas, mesmo que numa cidade do interior, como Barão de Cocais. Deve ser a já citada aculturação, que modifica os modos e costumes, não é mesmo?

Pois bem, esses a quem chamo de pseudo- pderosos não são tão pseudo assim! Detêm o poder sobre quem pode ou não pode se conservar no sagrado recinto de seu lar e ver TV, ler um livro ou dormir em paz. Decidem quem e onde se pode encontrar amigos e bater papo, em tom normal de voz, sem ter que gritar

Coisa desagradável é ter que compartilhar com esses rapazes uma música, num som fora dos níveis de tolerância, que causa estresse e irritabilidade, perturba o sono, trinca as vidraças, além do duvidoso gosto musical de seus divulgadores.

Eguinha Pocotó, Popozudas, Tapinhas que não doem, Rebolations, enfim, Axé, Sertanejo universitário, funk , pagode de corno... É tanto lixo ao gosto popular, que cada um deveria curtir de forma privativa, com fone de ouvido, no sagrado recinto de seu lar...

Gosto sim de MPB, de clássicos, um pouco de pop rock nacional e internacional... Tenho minhas preferências musicais e me dou ao prazer de ouvi-las em meu quarto. Os motoristas que trafegam pela minha rua não são expostos ao meu gosto musical, nem os pedestres ou os vizinhos... Por que teria eu que conviver com o contrário?

Como se já não bastasse, tem ainda as propagandas volantes, o carro do peixe, o vendedor de abacaxis, o evento que vai ser realizado, a queima de estoque da loja de confecções, a sessão de desencapetamento de alguma igreja, o circo que chegou...

Em que pesem as leis, favorecem o bem estar e é dever do Poder Público, das Polícias e do Ministério público zelarem para que essa algazarra, proveniente da emissão irregular de ruídos, ou sons não ocasionem perturbação à segurança viária, ao sossego público e ofendam o meio ambiente, afetando o interesse coletivo e difuso de um trânsito seguro e da qualidade de vida, resultando, na maioria das vezes, em desconforto, indignação e descrédito no cumprimento da legislação.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

In Extremis



Saudade Crônica (ou Crônica da Saudade)

Nos últimos dias, a despeito de um merecido descanso, agarrei um modo profundo de repensar a vida... Sobrevieram-me sentimentos confusos, doces, amargos, estimulantes, interrogativos, novos, derradeiros. Todo antagonismo próprio de quem pensa. E logo, existe.

Reli alguns poemas meus e três excertos poéticos levaram-me a escritura deste texto: 1 – “ A angustia dói”; 2 – “Sou fraca pra dor e aquebrantada de solidão”; 3 – “Sofro de saudade antecipada”.

Quantas e quantas vezes somos acometidos por dores que não são físicas, mas doem? Quantas vezes sofremos mesmo não sabendo discernir o que é angustia e o que é saudade? Não seria um tipo de doença?

Por definição, uma Doença crônica é uma doença que não é resolvida num tempo curto, definido, usualmente, em três meses. As doenças crônicas são doenças que não põem em risco a vida da pessoa num prazo curto, logo não são emergências médicas. No entanto, elas podem ser extremamente sérias, e várias doenças crônicas, como por exemplo, certos tipos de câncer, causam morte certa.

Seria a saudade uma doença crônica, uma vez que, comumente, dura e dura e dura...?
No dicionário Aurélio, saudade significa: “Lembrança nostálgica e ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; nostalgia”. “Pesar pela ausência de alguém que nos é querido”.

Como sentimento ou sintoma, sua existência é global, convivemos com ele diariamente. Já como vocábulo não. Apenas a nossa Língua Portuguesa se atreveu a defini-la e traduzi-la , em virtude de sua riqueza semântica. Temos o privilégio de sentir tudo o que pode ser entendido, mundialmente, como saudade e definir tudo em uma única palavra: saudade!

Nenhuma outra língua, por mais que tenha usado de recursos lingüísticos e vocabulares, conseguiu expressar com precisão seu real significado.

Mas a saudade não escolhe povos ou línguas! Ela existe. Simplesmente existe. De repente um cheiro, uma música, uma fotografia podem arrancar dos nossos corações um suspiro, uma lagrima de saudade, um rio de dor, o desejo desesperado do reencontro!

E a gente, a confirmar a Bilac, “Certo perdeste o senso!” e a desejar, no íntimo “Nunca morrer assim, num dia assim! De um sol assim...”

sábado, 13 de agosto de 2011

Inquietude


Alegria é uma coisa que deve ser sentida todo dia. Meu coração inquieto a quer o dia todo. Isso me incomoda! A alegria desfrutada na companhia de Clara, Mel, Gabriela, Duda, Maria Laura, Larissa e Maria Heloisa deveria ser oportunizada a todos, mas ao meu anseio de alegria não cabe a partilha.

Esses seres que explodem alegria por onde passam deveriam ficar sempre perto de mim. Confesso, mas rejeito penitências! Ora, afinal, há outras fontes de alegria que podem alegrar os corações alheios, já o meu, inquieto, contenta-se fartamente com essas meninas... Cada qual com seu gênio e características próprias.

Anna Lívia já anunciou que se aproxima e que pretende encher o coração da velha tia de muita satisfação. À novidade, meu coração palpita alegre já.

E elas crescem em tamanho e sabedoria.

E meu coração, inquieto, indaga o que virá no futuro.Seus filhos alegrarão corações? O amor os protegerá das aflições?

Ah coração... viva o momento presente enquanto inquietude das horas permite que se folgue!

Pó de ferro


Desde muito criança convivi com dois enormes jatobazeiros bem rentes à divisa de minha casa com a rua. Um cutucava o céu com frutos de dois ou três caroços, já o outro tinha os frutos pequenos, de um caroço só e era bem difícil de ser partido (não fosse o martelo de papai...)

Pois bem, cresci com as bochechas esticadas com um caroço de jatobá de cada lado e os dentes esverdeados e preguentos daquele pozinho com cheiro de ... de... Sei lá, acho que é de chulé!

As árvores davam a impressão que o quintal começava na frente da casa. Durante todo ano sujavam a rua, os jardins, as hortas e os telhados com quilos e quilos de folhas. Vez ou outra uma pedra se arriscava, vinda de não sei onde, pra derrubar um de seus frutos e esverdear os sorrisos dos garotos.
Sempre tinha alguém pedindo para retirar lascas da casca do pé de jatobá para algum daqueles remédios milagrosos.

Geralmente, essas árvores que curam formam feridas ao redor do tronco, que interrompem o fluxo de suas seivas e acabam morrendo... Deve ter sido isso que aconteceu com os jatobazeiros de minha infância. Não me lembro.

Mas lembro-me bem dos jatobazeiros e seus frutos... Isso me fez enveredar na net a procura de “pra que servem” e não é que têm muita serventia? O jatobá é considerado um fruto místico pelos índios da América Latina, sob a crença de que trazem equilíbrio para os desejos, anseios e sentimentos. Os cientistas comprovaram!Da sua casca é fabricado o velho e conhecido chá, que é exportado para a Europa e EUA com o nome de vinho de jatobá (estimulante e fortificante) e o pozinho “cheiroso” e comestível é rico em ferro e outros nutrientes.

Lembro-me também que em certa época do ano, as imensas árvores se enchiam de ramas de maracujá doces, mas mamãe não permitia que colhêssemos tais frutos, alegando que eram comida de cobra (crendice, é claro), mas uma prova irrefutável – quase irrefrutável!- da mãe natureza, que organizava frutos estimulantes e calmantes numa mesma copa, ambos ricos em ferro e outros nutrientes para uma infância saudável na antiga rua Belo Horizonte.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Um réquiem para Luiza


Quando as estrelas cintilam mais brilhantes nos primeiros minutos do novo dia, a lua de Luiza despista seu contentamento. A escuridão está no seu auge e o céu é mais negro para nós, que ficamos em terra enlutada.

Luiza, no entanto, encontra a mais luminosa luz na face oculta de sua lua e é recebida com júbilo e festa pelos anjos de Deus.
Sua longa jornada aqui na terra chegou ao fim e seus olhos se fecharam para sempre.

Nunca mais se acumularão néctares em seus cantos e nunca mais os veremos brilhar diante dos livros que tanto amava e das leituras que acalentavam sua longevidade.

Seu coração, já velhinho, insistia em bater, mal sabendo que há anos apanhava. Luiza agora descansa seu coração fatigado.

Os pássaros convocados a cantar para Luiza emudeceram. A Banda Santa Cecília não ensaiou o réquiem de Luiza e a menina-passarinho ainda é muito nova para executá-lo!

O silencio perdura. As palavras não significam tanto, mas eu desejava um réquiem para Luiza.

Luiza, solte as amarras que prendem seu corpo a terra e vai em paz! Que os anjos lhe guiem, querida vovó!

domingo, 31 de julho de 2011

Coisa pra se Guardar


“O que a memória amou fica eterno.” Assevera a talentosa Adélia Prado, reforçada por amantes da poesia e dos sonhos. O que a gente ama, a gente guarda, a gente cuida, a gente quer...

E o que e a gente guarda é porque quer manter... A velha canção já dizia: ”Amigo é coisa pra se guardar” e é la mesmo que deve estar protegido... Dentro do coração mesmo que o tempo e a distância digam não!

Amigo é aquela pessoa com quem podemos contar, a quem podemos contar e mesmo até de quem podemos contar.

Amigo não precisa, necessariamente, estar do lado. Amigo sempre está dentro! Dentro dos pensamentos, dentro do coração...

Há pais amigos, irmãos amigos, amigos irmãos... Dizem até que os amigos são a família que nos é permitido escolher!

Com um amigo podemos passar horas falando bobagens e achar tudo interessante. Choramos de rir e rimos mesmo em prantos. É... Amigo é um ser muito especial e o calendário especificou o dia 20 de julho para comemorar o Dia do Amigo. Se você é amigo ou tem um amigo. É o seu dia.

Mas se você é meu amigo... Dê cá o seu abraço!

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Sobre saudades e reencontros


Mês de julho é um mês inquietante. Um mês de clima frio e ambientes aconchegantes, farra de crianças em férias, alarido do vendedor de algodão doce, e uma atmosfera diferente que invade Barão de Cocais no sétimo mês do ano. Por todos os lados percebe-se brotar um evento cultural, que visa à reunião de amigos em torno da celebração da alegria e do orgulho de ser Pé de Pomba!

Ser Pé de Pomba não é apenas nascer ou viver em Barão de Cocais. É se comprazer em carregar no sangue a cor do minério, é trazer o brilho do esmeril das serras no olhar, é ter a simplicidade de pedir a bênção aos pais, é comer angu com couve, taioba ou ora-pro-nobis, é se embriagar de música, teatro e literatura, é ir a exposições de arte, participar de oficinas, bater pelada com os amigos, torcer pelo Metalusina ...

Ser Pé de Pomba não é mais ter as canelas vermelhas de poeira de minério, mas ter todo interior irrigado pelo sangue rubro dos que são corajosos, ousados, persistentes!É ter o coração forte para o reencontro de velhos amigos que há muito estão distantes e, por que não, esquecidos, é ter o sorriso cheio de dentes e de acolhidas!

Ser Pé de Pomba é aguardar, ansiosamente, a realização de cada espetáculo no circo teatro, é enfrentar filas pra pegar ingresso e torcer pro publico fazer bonito, com palmas e entusiasmo, gritando bárbaro... Pedindo bis!
Ah, ser Pé de Pomba é ter os pés vermelhos firmes nesta terra, é voar longe,mas sempre ter a certeza de voltar pra casa...

E casa arrumada dá muito gosto. Seja bem vindo ao Circuito Cultural 37ª Festa dos Pés de Pomba!

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Os cheiros de minha terra


O cheiro doce da canjica incensa o ar. Bandeirolas coloridas tremulam ao vento frio das noites de junho em Barão de Cocais. A fogueira, a cada ano mais bonita e crepitante, ganhou um cercadinho eucalipto para evitar aglomerações muito próximas e proteger os transeuntes de quaisquer acidentes.

A panela de milho cozido convida a uma parada mais demorada, o leite ferrado da barraca da pastoral da criança lembra cozinha de avó e as cocadas do Davi... Humm são inigualáveis!

Toda região da quermesse assopra aromas diversos que despertam o paladar em todas as suas potencialidades. Os churrasquinhos, caldos de todos os tipos, sanduíches, quentão, feijão tropeiro e tudo que boca desejar está ali, em honra a São João Batista, celebrando a vida, celebrando a fartura, celebrando a prosperidade!

A festa do padroeiro expulsa os casacos dos guarda-roupas, exalam perfumes e naftalina e tornam as mulheres mais elegantes (exceção feita a algumas mocinhas de gosto duvidoso e moral em formação, com seus micro vestidos e mini mini-blusas... Horríveis em seu desengonço!).

Igreja, poder publico e privado dão-se as mãos para a realização do jubileu, que celebra o padroeiro e o aniversário da cidade.

É tempo de alegria, de acolhimento, de banda de musica e fogos de artifício! É tempo de rever velhos conhecidos, de dançar forró e reinventar a quadrilha singela dos tempos de outrora.

A cidade comemora seus séculos, a fé se revigora nos pés descalços sobre as brasas e os balões se desprendem dos dedos miúdos para alcançarem os céus salpicados de estrelas.

O pipoqueiro se aperta entre a fila de gulosos olhares e a parede suntuosa da igreja. Maçãs do amor são mordidas vagarosamente, petrificadas de caramelo. Ao longe, ouve-se a voz repetida do cantador de bingo... Mais um frango assado se despede da mesa e vai de encontro ao ganhador da rodada. É noite de São João em Barão de Cocais.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Pequeno Conto de fadas


Uma fada-madrinha era meu sonho de menina. Aquele serzinho que cintila e que tem uma estrela na ponta de uma varinha. Uma fada – madrinha que transformasse minhas velhas roupas em belos vestidos de várias saias, meus cabelos crespos em lindos cachos e que devolvesse os meus dentes faltosos, que alguma outra fada (não a madrinha) levou com a promessa de deixar alguns trocados, que nunca apareceram.

As princesas – todas – das histórias que eu amava ler - tinham uma fada-madrinha, um príncipe encantado e um final feliz.

Um dia vi num desenho animado uma fada que não era uma linda mocinha, magrinha e maquiada como as fadas dos livros que eu lia! Era uma doninha sorridente, baixinha também e gorducha... Uma simpatia e me lembrava alguém.

Naquele dia eu já não sonhava com uma fada – madrinha que devolvesse os meus dentes, que já tinham crescido novamente. Mas ainda deseja a personificação do elemento na minha vida... Não é que ela existia mesmo?

Meus vestidos não eram os mais lindos e de várias saias, mas eram os que meu pai podia comprar... meus cabelos continuavam crespos dia após dia, mas com tranças, marias-chiquinhas, bobs... (risos)

Madrinha quer dizer “mãezinha” (do latim popular matrína diminutivo do latim máter, tris - madre, mãe). Todo mundo tem ou teve uma fada - madrinha. Aquela que cuida, protege, ama, transforma, alimenta, educa, veste, conserta, prepara para a vida, apresenta , introduz aos diversos meios, alegra-se com as vitórias, entristece-se com as dificuldades, enxerga além... Ela é a fada – madrinha! A minha é exatamente igual aquela do desenho animado, baixinha, gorducha, sorridente... Uma belezura! E me acompanha desde sempre: minha mãe.

domingo, 5 de junho de 2011

Fato


Coisa desagradável na vida é engolir sapos! Engulo. Custo a engoli-los, mas é preciso... sempre afirmei que sapos, vá lá engoli-los, mas pererecas não!Ah, tenha dó! Assim já seria demais!

E a notícia correu logo. Acho até que correu lagos, pois deparei-me com uma (perereca) na parede da varanda. Olhou-me fixamente com seus olhos arregalados e eu quis gritar. Não consegui.

O adiantar das horas impedia um escândalo madrugada a dentro. Engoli, como faço aos sapos, dessa vez o grito. _ Não a perereca!

Olhei-a também fixamente e, confesso, cheguei a ver ternura em seu olhar. Troquei um sorriso com ela, que se aproximou um pouquinho mais. Talvez quisesse alertar-me sobre as advertências do Ministério da Saúde sobre os malefícios do cigarro, mas já era tarde demais. A fumaça incensava a noite e eu, até então, não lhe dera liberdades para tais comentários.

Todas as noites ela passou a estar ali, a ouvir conversas para as quais arregalava cada vez mais seus olhos.

Ensinei-lhe, certa ocasião, que é preciso cuidado ao atravessar a rua... Que não deveria sorrir para os homens, os quais, na sua crueldade, a utilizariam como isca nas pescarias... Que seus pulos são ousados demais para não serem percebidos e que o silêncio evita engasgos, pois em boca fechada, não entram moscas!

Em contrapartida, ensinou-me ela que qualquer travessia é perigosa... Que o sorriso aos homens, mesmo aqueles que não pescam, pode tornar-nos iscas...Que somente a ousadia pode fazer-nos subir pelas paredes, mas o pior foi saber que as moscas são alimentos nos interstícios das falas...

Seus ensinamentos foram de uma sabedoria sem procedência e, diante de tal constatação, calamo-nos.

No lapso de uma piscadela vi seu pulo transportá-la para o quintal vizinho e seu olhar derradeiro impregnou-me de dúvidas.

...................................................................................

*Texto recuperado. Escrito e publicado por mim em algum lugar e tempo passados. Atualizado para o blog.

Sonhicídio



De parto dorido e acalentada espera precipita-se pela razão a gnose do nascimento de um sonho. Um sonho gerado a contra- gosto, concebido sem planejamento e com todos os quesitos para uma condenação natural, mas ao mesmo tempo um sonho amado muito antes de haver sido fecundado, um sonho que transcende os tempos e que vagou inconsciente e inconseqüentemente pelo cosmos por mais de uma dezena de anos até encontrar espaço onde fazer morada. E deu de cismar comigo. Logo eu que tanto me precavi? Eu que me gabava de sonhar apenas quando queria ou quando dormia? Em que momento de fragilidade vacilei a ponto de sonhar tanto? Porque minhas investiduras abortivas não funcionaram? As dúvidas retornam a cada pulsar cardíaco- respiratório como contrações... O sonho é que parece agora não querer mais nascer.

Gerado em acalentados silêncios um novo sonho adquire sinais de vida. Nem os estudiosos da psique nem a mais cortejada plêiade conseguiram diagnosticar a placenta dos sonhos e as alternativas que se nos propõem encontram-se no coração ou no cérebro. Nada há entre um local e outro...somente as dúvidas permanecem e a espera é, geralmente, um misto de dor e gozo, um prazer que faz sofrer, um doer que faz gostar...

Muitas tentativas de assassinatos de sonho são cometidas durante sua gestação. Às vezes em nome da moral, às vezes em nome do preconceito, do imerecimento ou do medo... Alguns sobrevivem . Simplesmente sobrevivem e, a certa hora, é mister que nasçam.

A noite estrelada cintila como gotas de orvalho em folhas de taioba. Singela metáfora ruralista em que não se coube verso... A lua disforme em sua minguante aparência aparece zombeteira semeando uma pálida luz azulada sobre minha face, carente de todos os benefícios dos raios solares da manhã. O ventre, incorrigivelmente saliente, não traz consigo nenhum projeto de estrela, nenhuma lua nova, crescente ou cheia, nenhuma vida futura... Os sonhos não nascem do ventre.


..................................................................................

*Texto recuperado. Escrito e publicado por mim em algum lugar e tempo passados. Atualizado para o blog.

Tarde


A tarde está bonita e ensolarada. É Domingo e poucos se atrevem a colocar os narizes do lado de fora de casa... Muitos estão tele- hipnotizados pelos programas de auditório ou pelos clássicos do futebol brasileiro. Outros oferecem ao corpo a merecida sesta impossível de ser curtida nos dias de feira. Outros, bem menos, alimentam a alma com uma boa leitura ou uma boa música em qualquer canto da casa. Eu estava fazendoa fazer as duas últimas coisas - que muito me agradam - mas surgiu, não sei de onde, um convidativo cheiro de cigarro, que resolvi acentuar.

Cigarro em uma das mãos e isqueiro na outra, acomodei-me no alpendre para fumar e pude contemplar a tarde que se exibia ao mundo... Um abandono total foi o que testemunhei nas ruas deste Domingo. Nem um carro, nem uma moto, nem uma bicicleta e nem uma pessoa transitavam. Algo deve estar acontecendo, pensei. Onde está todo mundo?

Um beija-flor interrompe meus pensamentos ao chegar muito perto de meus olhos. Isso me assusta! Vi que algumas borboletas coloridas voavam próximo às roseiras de minha mãe e que bem mais no alto, acima delas, voava um outro bando de borboletas brancas.

Tive o ímpeto de apanhar uma, pelo menos uma borboleta! Quando era criança às vezes fazia isso, embora sempre me arrependesse depois. Meu grande sonho, porém era ter - e domar - uma borboleta azul, daquelas enormes que, ao mesmo tempo em que fugia da gente estava a nos perseguir. São lindas!

Impressiona-me até hoje o fascínio que tais borboletas exercem sobre mim... Seduzem e renunciam o tempo todo! Desisti de apanhá-las e voltei a reparar que as coloridas voavam próximo às roseiras e que bem mais no alto, voava o outro bando, o das borboletas brancas. Quem pode acreditar que lagartas aparentemente feias e asquerosas transformam-se em borboletas tão bonitas? É a metáfora paradoxal da natureza!

Enquanto os homens se enfurnam dentro de suas moradas para sonhar, as borboletas deixam as suas com o mesmo propósito! Borboletas e sonhos têm vida curta... Ambos são, geralmente, lindos e frágeis e precisam de liberdade para se realizarem! Sonhos coloridos são mais próximos e alegres, já os brancos são simbolistas, nebulosos, etéreos... Não temem a fragilidade da própria existência e se aventuram em alturas pouco recomendadas.

Os sonhos - e as borboletas - grandes e azuis não se deixam aprisionar com facilidade, nos deixam extasiados por sua beleza e escapam o mais rápido que podem a qualquer tentativa de captura...

Das asas dos sonhos e das borboletas surgem as cores das tardes de domingo, que geralmente não vemos por estarmos imersos em nossos próprios sonhos.

Estes aguardam a liberdade para se fazerem realizar, enquanto as grandes e indomadas borboletas azuis nos projetam para os grandes sonhos.

..................................................................................

*Texto recuperado. Escrito e publicado por mim em algum lugar e tempo passados. Atualizado para o blog.

sábado, 4 de junho de 2011

Ensaio sobre a lucidez*



A loucura é sedutora, faceira, abrasadora... Os loucos são felizes e têm a louca consciência de que o são, por isso se calam.

Não há, deveras algo mais comunicativo e filosófico que o silêncio dos loucos. Talvez escutem os murmúrios que a sanidade impede aos normais escutarem, talvez tenham o espírito embriagado nos poemas mais líricos e não se atrevem a macular a sonora afonia dos versos declamados. Os anjos o fazem e interrompê-los é pecado dos mais graves.

A loucura é sedutora, faceira, abrasadora... Os bêbados não são loucos mas buscam atormentar a mente a fim de se libertarem da loucura que é viver sóbrio. Os loucos são felizes, mas os bêbados não são e têm a louca consciência da sua infelicidade, por isso falam. Falam muito, falam alto, às vezes, baixo. É incrível como a loucura programada desata os nós da língua. Alguns, de tanto desejar, até chegam a incorporá-la, entretanto, com um agravante: falam demais.

A loucura é amiga do silêncio e dos pensamentos solitários. Desconfie dos loucos falantes. Estes não são loucos! Louco falante é o projeto do homem feliz que poderia ter sido e não foi por força da absoluta ausência de critérios na distribuição da loucura. Um pouco de loucos todos temos, mas um pouco, às vezes tão pouco que não nos permitimos enxergar sua existência . Daí, saímos por aí a falar, a beber e a filosofar numa indubitável verborragia sonora.

Os loucos, de fato loucos, incomodam mais pelo silêncio que pela falácia. Incomodam e não invejam a normalidade ensandecida dos não- loucos, enquanto estes, infelizes que são, tentam a todo custo isolar seus dessemelhantes porque são felizes.

E enquanto não nos acorrentam ao estereótipo de loucos e nos martirizamos com a expressão "isso é loucura" a cada exíguo momento feliz, este ensaio visa a propositura de uma trégua à vigília, estendendo à avidez dos desejos um convite e um brinde à felicidade. À nossa!

..................................................................................

*Texto recuperado. Escrito e publicado por mim em algum lugar e tempo passados. Atualizado para o blog.

Os mistérios de Clarice *


Os homens pequenos...Que andar irritante possuem!

As pernas não acompanham a velocidade do desejo que têm de caminhar. São insistentes! A estrada quase sempre muito longa e as pernículas loucas em movimento sincronizado.

O sol projeta dos homens pequenos, grandes sombras; noutras vezes, torna-os ainda menores! Não seria o sol, talvez, a própria sombra de homens iluminados? Por que motivo para olhá-lo temos de estar mascarados? Por que o sol não se permite ser visto a olhos nus?Por que nos obriga a baixar os olhos e pender a cabeça ao invés de erguê-los?

O gato preto tem olhos amarelos cortados por uma pequena linha escura... É apavorante! Por certo o astro rei teme alguma descoberta e quando nos mascaramos sob os óculos escuros, fazemos seu jogo medíocre para que seu castigo não venha a ferir-nos as retinas... Gatos não usam óculos, nem bonés, nem guarda-sóis... por isso têm olhos de pavor, por isso são tão assustadores!

Faço parte do time dos pequenos e insistentes caminhantes.

Não sou do dia. Não gosto das sombras e não faço questão de olhar de frente o sol. Brilho por brilho, prefiro o da lua... Linda, majestosa, deslumbrantemente perfeita sobre o céu escuro. Mesmo que o corpo clame - e clama!- pelo sono, é certo que dormir, à noite, é o mesmo que perder tempo.

À noite não carecemos de máscaras para ver o céu. À noite não temos sombras que nos provocam a ilusão de repentino crescimento ou achatamento total. À noite, todos os gatos são pardos, mas nem todos os olhos amarelos. Meus olhos, tais como os de Clarice, são verdes, mas de um verde tão escuro que todos pensam serem pretos.

...................................................................................
*Texto recuperado. Escrito e publicado por mim em algum lugar e tempo passados. Atualizado para o blog.

Meteorologia*


O canto da cigarra prenuncia a chuva que os meteorologistas anteciparam. A joanete da velha da esquina também já dera sinal de que as águas estão por cair. As formigas cortadeiras trabalharam toda noite, para desespero de minha mãe, que vê suas roseiras reduzidas a um amontoado de gravetos presos ao chão pela raiz. Não há dúvida de que a chuva não tarda...

Vô Joaquim preparou, cuidadosamente, em cada uma das esquinas da casa uma lata de boca para baixo, a fim de que as goteiras da casa, construída em quatro águas, possam cantarolar ininterruptamente a balada que enlouquece e encanta, variando de acordo com o humor dos seus pobres ouvintes. É um dos seus rituais prediletos.

Vô Joaquim alerta que a lua é nova, é tempo de tribuzana (chuvas com ventos e relâmpagos) e diz que acha uma belezura a cantiga das goteiras ensaiadinhas... Particularmente, acho horrível! É um tec, toc, tac irritante, que parece ser ouvido não pelos ouvidos, mas pela parte frontal superior do rosto, ou seja, olhos e testa, que é onde concentro a tensão que o barulho de goteira sobre superfície metálica e oca ( como as latas!) me provoca. Ah, quantas vezes já desejei sair sob a chuva para retirar esses objetos estrategicamente mal colocados 9ou esquecidos!

Pelas bandas do garimpo já está caindo um toró! Quase não se vê mais a serra! Em Santa Bárbara, embora o padroeiro seja Santo Antônio, quase todos já apelaram para as graças da protetora das tempestades, que empresta seu nome à cidade. As palhas bentas do Domingo de Ramos já estão à mão para qualquer necessidade ( dizem que abranda os relâmpagos).

Um vento forte faz as folhas da mangueira varrerem o telhado. Os eucaliptos da Pampulha fazem uma magnífica coreografia jazzística... A chuva chega branda e a luz nem chegou a piscar. O sol permanece com o ar de sua graça e as crianças cantam "sol com chuva, casamento de viúva!" Em pouco tempo percebe-se o mormaço ocasionado pela evaporação das águas.

Não foi preciso usar as palhas bentas... As latas de vô Joaquim nem chegaram a cantar e minha mãe, aproveitando-se da lua nova, procede à poda das roseiras, que já desfolhadas, farão emergir novos brotos roxos, repletos de botões.

..................................................................................

*Texto recuperado. Escrito e publicado por mim em algum lugar e tempo passados. Atualizado para o blog.

As asas da liberdade*


Liberdade! Uma palavra que mesmo sem nos apercebermos a vemos ligada, diretamente, a um par de asas. Asas de pássaros, de Pégasus, de anjo, de joaninhas e besouros, de borboletas! Sim, de borboletas! Quão frágil e bela criaturinha se vê livre em meio às perfumosas flores.

Certa vez, Vovó Nhanhá contou-me a "origem da borboleta" para explicar a metamorfose da lagarta. "Um dia, estando a filhinha de uma feiticeira poderosa a passear pelos campos e florestas, pisoteava lindas e frágeis florzinhas sem nem mesmo observar o que fazia. Ela não tinha intenção de estragar as plantas, apenas não se importava em ter cuidado. Foi quando uma flor diferente, de um colorido raro e um perfume forte, ao perceber a aproximação da menina temeu ser pisoteada sem o direito de se defender e praguejou contra a vida, reclamando por estar presa ao chão pela raiz, dizendo que gostaria de ser livre e poder optar em ficar ou não naquele local. Queria ir e vir quando assim bem entendesse. Por um momento deus se entristeceu, pois gostava das flores e as queria feliz, como que a toda criatura sua.

No ímpeto de sua fúria, a florzinha reuniu todo o seu pólen e o lançou, como num sopro no rosto da garota, que por incrível que pareça, havia notado a exuberância daquela flor e se baixou para cheirá-la. A menina, com os olhos ardendo, saiu correndo e pedindo a ajuda da mãe, pois não conseguia parar de espirrar, fato esse que durou três dias.

A feiticeira, revoltada com o atentado da florzinha, decidiu que não queria mais nenhuma flor pelas bandas de sua casa. Após preparar uma poção mágica, transformou em lagartas todas as flores das plantas que via. Ao ver a sua obra, ria-se feliz pela vingança.
Deus, por sua vez, misericordiosamente, transformou as pobres lagartas em borboletas, dando-lhes, por fim, a reclamada liberdade de ir e vir, possibilitando-lhes aproximarem-se das flores e conviverem com elas, que eram meio que parentes da nova espécie criada."

Origem ou lenda, a liberdade passou a integrar a imagem de um par de asas, tornando-se o sonho dos homens - que não têm raízes presas ao chão -, o sonho de Ïcaro... ter asas, voar... Mesmo que em asas de aço, voar num avião, seguir o pássaro que voa... Dormir na lua... Reencontrar Teteca.

....................................................................................

*Texto recuperado. Escrito e publicado por mim em algum lugar e tempo passados. Atualizado para o blog.

A altura da janela*


Perco-mewem pensamentos que retornam à minha infância passada totalmente na velha casa colorida da Rua Belo Horizonte - hoje Tancredo Neves - no Bairro São Miguel...
Apesar de simples, a casa era suficiente para acomodar os meus pais e seus onze filhos, tinha jardins, horta, quintal cheio de frutas... mas o que fazer nestes dias em que parece que o mundo vai se acabar? (Aliás, talvez nem tanta água assim, mas na minha pueril concepção, parecia ser um novo dilúvio.)

Deságuam diversas nuvens juntas, águas muitas que caem sem parar. Onde era o gramado do jardim, forma-se um pequeno lago no qual bóia um barquinho de papel, feito de folha de caderno. O dia parece eterno e do mundo parece ser o fim. Ai... que será de mim que morro de medo de relâmpagos? Essas luzes barulhentas que entrecortam o céu em meio às nuvens cinzentas, choronas e frias ?! Quisera fossem pirilampos em carreiras, voando abraçados à procura de abrigo...

Recordo-me do perigo no exato momento de um raio. Tomo assim a consciência de que vaga-lumes não se abraçam (a propósito, nem têm braços...), são vagarosos e piscam suas luzes - em dias não chuvosos - e que suas luzes são verdes!

Cada pingo que caía nas pequenas poças era como uma piorra que formava numerosos discos que iam aumentando de tamanho ininterruptamente e que, se olhados fixamente, davam a sensação de vertigem.

Tenho a nítida impressão de que estou acompanhada de meu anjo da guarda e peço um favor: que me mande um arco-iris! Daqueles brilhantes e bem coloridos que nos permitem sair de casa para brincar nos leitos secos das enxurradas e lagos recém formados pela lavagem do céu.

A demora em atender-me talvez não consista no fato de eu não merecer, mas sim porque até que todas as luzes que acendem as cores sejam convocadas a voltar à ativa- pois em dias chuvosos somente a cor cinza trabalha, as demais ficam de folga -, demora mesmo! Acredito nisso e, na ponta dos pés tento ampliar meu campo de visão para alem chuva...

Esbarro a cabeça na veneziana verde da janela (por que as janelas são tão altas?)Oh! O meu barquinho naufragou...

....................................................................................
*Texto recuperado. Escrito e publicado por mim em algum lugar e tempo passados. Atualizado para o blog.

Caminha Zé Antônio*


Os muito mais jovens, por favor, me perdoem, mas aqueles que há mais de trinta anos conhecem as ruas e as pessoas de Barão de Cocais, provavelmente se lembrarão das muitas - mas muitas!- figuras históricas que passaram por esta terra... Faça uma breve pausa. Um momento de introspecção...

Lembra-se de " João Mata- Cobra" e da " Maria Funicida"? É Funicida mesmo, numa alusão à "Formicida": preparo utilizado para matar formigas... Esse apelido lhe foi conferido quando, por descuido ou obra do acaso, pisou em um formigueiro e, diante do impiedoso ataque das formigas, num acesso de fúria, atou a pisotear todas quantas lhe apareciam na reta, a qualquer hora, em qualquer lugar... chamaram-na, pois, "Maria Funicida". Pois bem, lembra-se de João Mata- Cobra e da Maria Funicida ? Eu me lembro!

Lembro-me da velha casinha de sapé na antiga rua Belo Horizonte, indo em direção ao bairro Leão XIII, onde, às vezes, eu imaginava morarem São José, Nossa Senhora e o menino Jesus... Era a outra, no entanto, a trindade lá residente. Naquela casa morava um casal que, ao que me consta, foi agraciado com o nascimento de um menino a que deram o nome de José Antônio.

Lembro-me dos cabelos sararados de Maria... sua pele muito preta e reluzente, cuidadosamente lustrada, parecendo encerada... Maria sempre seguindo o João, seu amigo, amázio, marido,namporido sei lá...

João ia à frente. Um galho de árvore à mão, quase da sua altura, que, às vezes era bengala, para amparar os predicativos debilitados adquiridos pelo avançar da idade e, por outras, era como um cetro de rei, impondo-lhe um andar austero e imperativo. Não sei quantos anos tinha, mas por certo não era novo. Na boca, nem um dente lhe dava o ar da graça... os cabelos eram todos branquinhos (até os das sobrancelhas!) e uma magreleza de fazer inveja à faquir! Ah, o detalhe que não poderia passar despercebido: As calças. Sempre amarradas com imbira.

Atrás seguia o pequeno Zé Antônio. Que será feito dele hoje, com seus 40, 41 anos? Terá, por ventura, compreendido a lição de vida ensinada por seus velhos pais? Não havia sequer uma vez que passassem, a passos largos, João Mata-Cobra e Maria Funicida, sem que se ouvisse o dueto:
Ela: "Caminha Zé Antônio! ( Com a voz aguda e alta)
Ele: "Caminha! Caminha!"(com a voz rouca e baixa)

E Zé Antônio seguia a vida a tropeçar em pedrinhas (ás vezes nem tão pequenas) na tentativa de alcançar e acompanhar os pais, que continuavam a lição diária: Caminha Zé Antônio! (...) Caminha, Caminha!(...) Caminha Zé Antônio! Caminha!

....................................................................................
*Texto recuperado. Escrito e publicado por mim em algum lugar e tempo passados. Atualizado para o blog.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Sobre tudo


É bastante conhecida a historinha da cobra que perseguia o vagalume a fim de saboreá-lo, mesmo não sendo este parte de sua cadeia alimentar. Cansado de tanto fugir das investidas da cobra, o vagalume indaga o motivo da perseguição e a cobra responde simplesmente: “não suporto vê-lo brilhar!” E assim ta na Boca do Povo.

O brilho de alguns irrita a outros, os quais desferem todo tipo de ataque a fim de apagar o irritante brilho alheio.

Em termos de cobra, a simples menção da palavra às vezes causa arrepios. Cobra é a palavra utilizada, na boca do povo, para identificar uma pessoa sem escrúpulos, uma pessoa traidora, perversa ou enganadora.

E se Deus desse asas a cobra? Por certo ela voaria! Por certo também os dentes lhe seriam tirados, afinal, é próprio de Deus agir com justiça, assim ta na boca do povo.
É na boca do povo que colhemos as melhores pérolas de reflexão para a vida.
Na boca do povo encontramos verdades supremas e mentiras descabidas... Alguns afirmam que o que ta na boca do povo, vem da boca de Deus, mas eu tenho cá minhas dúvidas.

A mesma boca do povo que entoa hinos de louvor e glória num dia pragueja e amaldiçoa no outro! A mesma boca do povo que se cala diante de injustiças, põe-se a desferir golpes/palavras que ferem e maltratam...

Na boca do povo encontramos de tudo. Sorrisos sinceros, línguas presas. Pseudo sorrisos, língua solta. Dentes, ausências, comidas, fomes e desejos... Tudo isso habita uma mesma boca. A boca do povo!

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Trocando em miúdos


Ah, bonito quando a simplicidade faz alguém dizer diante de uma ostentação que não lhe apetece “nem me bateu (tremeu, abanou) a passarinha!” Mas espera lá... Passarinha seria o feminino de passarinho? Seria lindo, poético até se fosse esse o seu significado, mas não é.

Para compreendermos melhor, vamos a uma pequena incursão médica : “ O baço é um órgão linfóide situado no hipocôndrio esquerdo, abaixo do diafragma, atrás do estõmago e pesa em média 200 g, possui a cor arroxeada, forma ovóide alongada e cabe na palma da mão, com cerca 12 cm de comprimento e 8 cm de largura.. Acha-se envolvido por uma cápsula fibrosa, que o divide em lóbulos, por meio de tabiques - os septos conectivos - que formam uma estrutura de sustentação, e nos quais existem fibras musculares lisas, responsáveis pela contração e pela distensão do órgão...”.......... (vide bula)

Na nossa cultura, o baço é também chamado de passarinha. Fosse Drummond a escrever, optaria pelos seus versos do Poema de sete faces e rasgaria, sem temor um “Mundo, mundo vasto mundo/se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução”... Pra entender esse mundo vasto seria preciso ler Drummond, Humberto Eco, o Midrash, o Zohar????(não necessariamente nessa mesma ordem)

Ao dizer que não lhe bateu a passarinha, a pessoa, provavelmente sem saber, remete-se a um fato cultural proveniente da cultura hebraica, em cujo Midrash, livro da tradição histórica, inclui o baço entre os 10 órgãos que contêm a alma. Isto se deve à assertiva, proveniente do Zohar, outro famoso livro do misticismo hebraico, segundo a qual “o baço produz o riso e a alegria”.

A culinária brasileira conta com diversos pratos que possuem em seus ingredientes a passarinha (o sarapatel, por exemplo, que é uma bela mistura de miúdos de porco, ou a passarinha de boi frita...).

Trocando em miúdos, queremos ver e sentir tremer nossa passarinha com a chegada de um amigo, com a vitória de nosso time, com a presença de um amor, com o restabelecimento da saúde...

E é isso! Quando não bate a passarinha, a pessoa não sentiu alegrar-se a alma, não se entusiasmou, não teve tesão. Donde nos vem a (in)consciência de que o baço, dentre suas funções possui a de sinalizar a alegria e o riso... Eis um rápido diagnóstico para a depressão e o mau humor... Problemas no baço!

sábado, 7 de maio de 2011

Olhos que me fitam


Tenho às vezes um olho científico, que mira o céu de Galileu. Em outras ocasiões, o céu é o mesmo, mas o olho é de apaixonado, que mira todas as estrelas e sente-se dono de cada uma delas.

Por outras vezes tenho um olhar de cobra, que paralisa o outro olhar num transe hipnótico. Não raro, tenho o olho de peixe morto, inexpressivo, perdido no espaço, no mundo do sonho, fora da realidade...

O olho do bicho-papão me metia muito medo e o olho do furacão me assusta até hoje!

Olho de sogra é uma delícia calórica. Detesto o olho de seca pimenteira e, para detê-lo, uso o olho de tigre no peito.

Olhos de santo têm que ser perfeitos, ternos e complacentes! Como não sou santa, uso óculos (ás vezes escuros) e me escondo por trás de suas lentes.

Sempre de olho vivo nos sinais da sorte, já tive um vaso de trevo de quatro folhas! Morreu de olho gordo...

Como boa e autêntica mineira que sou, aprendi a desconfiar. Fico sempre com um olho no peixe e o outro no gato... Álvaro de Campos, diretamente do albergue de Fernando Pessoa, outorga a sua dúvida com olho de inquisidor: “Gato que me fitas com olhos de vida, quem tens lá no fundo?”

terça-feira, 3 de maio de 2011

Pé de pato, mangalô três vezes!


Como se não bastassem as mortais curvas da BR 381, nas quais a gente fica cara a cara com “a indesejada das gentes” - apregoada por Bandeira - com a interdição da velha ponte sobre o Rio das Velhas, os desvios são inevitáveis para quem precisa chegar à capital mineira pela 381.

Sem o romantismo piegas da musica de Roberto Carlos “Nas curvas da estrada de Santos”, acabo de aventurar-me nas curvas da estrada que liga Caeté a Sabará.Segundo as más línguas, a estrada fora projetada por topógrafos e engenheiros “zoiudos” que eram pagos por curva executada. Valham-nos Nossa Senhora do Bonsucesso e Nossa Senhora do Ó, porque trafegar naquele trecho é mesmo o Ó!

A estrada é absolutamente estreita, o tráfego hiper, mega, ultra intenso, sem orientação policial, do Dnit ou do DER o trânsito se engastalha todo no momento em que surge uma carreta, caminhão ou ônibus. As filas de veículos serpenteiam nas tantas curvas da estradinha e a visão da paisagem é deslumbrante! Nenhuma lanchonete, posto de gasolina ou bar em todo o trecho e nessas horas, a bexiga quase estoura.

Lembra-se que uma rodovia destruída pelo terremoto do dia 11 de março em Naka, na província de Ibaraki, no norte do Japão, foi reconstruída, em apenas SEIS DIAS pela empresa responsável, que recuperou um trecho de 150 metros que faz ligação com a capital Tóquio?

Informações – poucas – nos dão conta que a ponte deverá ser devolvida para uso num prazo aproximado de SEIS MESES, o que nos faz desejar que a empresa contratada para a obra seja todinha formada por japoneses... Por via das dúvidas, alguns patuás poderiam ajudar a afastar o olho grande e talvez diminuindo o tamanho dos olhos, diminua também o prazo de execução da obra.

Eu passarinho


Alguém que demonstre uma simples alegria, sem motivo aparente é identificado como alguém que viu “passarim verde”. Sim, a expressão sobrevive há alguns séculos e segundo Câmara Cascudo (Locuções Tradicionais no Brasil) remete ao tempo do uso dos periquitos como portadores de mensagens de casais enamorados, assim como uma lenda do século 19, segundo a qual as moças avisavam seus namorados do envio de cartas de amor colocando um periquito perto da grade da janela. Assim, a simples visão do pássaro acalentava a esperança de uma noticia da pessoa amada e botava-lhe um sorriso no rosto.

Pois bem, essa incursão histórica/folclórica é só pra registrar que hoje não vi um pasarim verde... Sim, eu que sempre tive um sorriso no rosto acabei de descobrir que o principal motivo é porque tinha um passarim verde. Desde menina sempre tive um, dois, três periquitinhos... Dany, Quico e Aninha. Daniele e Quirino viraram comida de gato. Aninha fugiu. E eu chorei por todos eles.

Depois ganhei o Teteco, uma maritaca macho , que vivia sob cuidados veterinários por causa do stress e da carência de vitaminas... Arrancava todas as penas de seu corpo e sangrava...Morreu de infarto após sete anos de convivência e quase me matou de tristeza e pranto.

Ganhei a Frida, que ficou apenas 3 anos comigo e se escafedeu em um vôo ingrato para nunca mais voltar. Quase me acabei em lágrimas.

Poucos dias depois da fuga de Frida, ganhei a Teteca, que deu um berro com a morte hoje e me deixou. Sete anos depois de estar comigo. Parece sina cabalística, não é mesmo?

Não sei explicar, mas em minhas investiduras terapêuticas, era sempre posto em análise um sonho recorrente, no qual eu batalhava horrores para aprisionar um passarim verde e nao o conseguia... Há anos não sonho com essa desventura.

Ao retornar de uma pequena viagem, deparei-me com o poleiro de Teteca vazio e nos rostos compadecidos de toda família o receio em dar-me a noticia.

Hoje não vi meu passarim verde. Talvez as lágrimas estejam me embaçando as retinas. Ah Quintana, quão bem me disses! “Todos esses que aí estão atravancando o meu caminho, eles passarão.. Eu passarinho!”

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Quem procura...


Quem perde o trem se entristece e faz triste os que o aguardam. Quem perde a felicidade, mais que aquele que perdeu o trem fica triste. Quem perde a cabeça faz besteira, inevitavelmente. Entristece-se quem perde o emprego, quem perde o amor, quem perde dinheiro, quem perde a vontade de viver... Perder quase sempre é sinônimo de tristeza para si e para os que amam o perdido ou o perdedor.

Amar o perdido deixa confundido o meu coração também Drummond! E no olho do furacão rodopio vertiginosamente, tremo de frio, tremo de medo e choro sem tristeza.

Se eu perder os dentes, não sorrio mais. Juro!
Se eu tivesse felicidade a ponto de perdê-la, acho que diria que a estava partilhando. Se eu perdesse alguns quilos... Não. Se eu perdesse algumas arrobas acho que ninguém veria tristeza no meu rosto por esse motivo.

Procuro um amor que não perdi, a felicidade que ainda não alcancei, o caminho que não foi perdido porque nem sei se existe... Não perdi o trem, não sou trem (mas ando nos trilhos), já perdi a cabeça (e fiz besteiras) várias vezes e ainda assim não me perdi. Continuo procurando. Procurar e não encontrar é passível de penalização e o agravante é que mesmo não tendo me perdido, não fui encontrada...

O pior mesmo foi descobrir que as mulheres perdidas é que são as mais procuradas!!!

Sobre vinhos e vidas



Nunca li o Alcorão, mas recordo-me uma sua citação “uma gota de álcool não beberás”. Sempre notei a atitude de diversos bebuns que seguiam piamente a recomendação e ofereciam uma mísera gotinha ‘ao santo’. Bom já se vão quase sete anos que não coloco a famosa gota na minha boca também, mas conviver com os apreciadores das bebidas alcoólicas não me incomoda. Mês de Maio é mês de Festa do Vinho na cidade vizinha de Catas Altas.

Do vinho mesmo não dou noticia, mas a programação musical é, geralmente, impecável. Coisa para pessoas de bom gosto e refinado paladar musical. Os melhores shows aos quais estive presente foram lá, na Pequenópolis Catas Altas.

Atmosfera convidativa ao aconchego, pé de serra, casario histórico, igrejas seculares, vinho, gente bonita e musica de boa qualidade. Ingredientes perfeitos para o sucesso da festa.

Verificando a programação deste ano, uma sensação de êxtase tomou conta de algum lugar dentro de mim ao constatar o encerramento com O Teatro Mágico. O Teatro Mágico é uma mistura de circo, poesia e discussões políticas, que debate temas como arte e cultura. Alguns nunca ouviram falar dele, alguns não o conseguem entender, no entanto como diz o próprio Anitelli “ O Teatro Mágico não é pra se entender ,O Teatro Mágico é pra se sentir, para se viver.”

Assim sendo, O Teatro Mágico adquire nuances de alimento. Como já disse em outras ocasiões, minh’alma tem fome de poesia e eu adoro sopa de letrinhas. Fernando Anitelli é um excelente gourmet e nos oferece iguarias ímpares, uma vez que somos um exemplar apenas de cada um de nós,uma vez que estamos quase em extinção...

Não bebo. Sim! E estou vivendo. Só que viver, às vezes dói. Dói a constatação da manipulaçao, da traição, da falsidade. Dói a decepção de acreditar no ser humano e saber-se ridículo por isso, mas decepções em mim só doem quando respiro e daí, volta Anitelli me consolando “só enquanto eu respirar, vou me lembrar de você”.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

O lendário Jorge (daqui, dali e de Capadócia)


Príncipe no Cavalo Branco em socorro das mocinhas sedentas de amor... Rival dos poetas desejosos de assenhorar-se da lua... Escuderia de Fé inquebrantável dos guerreiros de Ogum, Oxossi das Matas, fidelidade personificada, comandante cristão, protetor da fé, patuá contra os olhares maldosos... Ei-lo comemorado em 23 de abril: Jorge, de Capadócia!

A ele tributos são dados em musicas, orações, medalhas cunhadas... Herança deixada pelos portugueses, o culto a São Jorge ganhou reforço dos africanos pelo sincretismo religioso e ao militar/mártir são dedicadas missões e promessas, as quais mal tem tempo de constatar. Jorge protege contra a inveja, contra os inimigos, contras as investidas de armas de fogo e de armas brancas. O escudo de Jorge protege o seu devoto e o distancia dos perigos. O protegido de Jorge torna-se um seu soldado seguidor.

Por todos os lados, pobres, desvalidos, afortunados e destemidos clamam pela proteção do nome do guerreiro que não vacila em sua fé em Deus... O Rio de Janeiro se divide na devoção entre os mártires Sebastião e Jorge, pois oficialmente o padroeiro é São Sebastião, já boa parte dos cariocas convoca ao posto São Jorge... Terreiros de candomblé, de umbanda, igrejas católicas, anglicanas, tabas, tendas, mosteiros, conventos levam seu nome em honraria, mas o que mais emociona é o sonho de felicidade... Moçoilas de todo universo sonham com a chegada de um príncipe montado em um vistoso cavalo branco, a capturá-las da infelicidade para serem felizes para sempre... E lá vem Jorge novamente! Ops... Dá licença? Este lugar na fila é meu!